
28 ago Mais de 35 mil brasileiros estão em grupos neonazistas no Telegram
Miscigenado, com culturas diversas e uma abrangência de etnias diferentes, o Brasil poderia ser um daqueles países que ninguém jamais associaria ao nazifascismo. Contudo, a realidade é outra, e um novo levantamento destaca que mais de 35 mil usuários brasileiros estão em grupos nazistas no Telegram.
Quem explica esse número é o pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Ergon Cugler, por meio de uma reportagem ao The Intercept Brasil. O especialista mapeou a existência de comunidades abertas na rede social de mensagens, que se destaca pelos seus grandiosos canais com conteúdos diversos.
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Não é difícil encontrar esse tipo de conteúdo. Basta uma pesquisa simples no Telegram, alguns termos-chave, e em pouco tempo qualquer um pode entrar em canais que sequer deveriam existir — mas de alguma forma ainda estão ali, seja por descuido ou anuência das plataformas.
Um em cada quatro usuários está em grupos neonazistas
Nos grupos do Telegram, esses usuários neonazistas não têm medo de se expor. Fazem citações diretas às frases do ditador fascista Benito Mussolini, fuzilado em praça pública. Suposições de que pessoas negras também parecem animais, possivelmente em alusões a macacos, também são facilmente observadas. Não há pudor, tampouco compaixão.
Número de visualizações e comentários apontam alto engajamento nos conteúdos criminosos (Imagem: Intercept)
O levantamento realizado por Cugler sugere que um em cada quatro usuários neonazistas identificados na América Latina é brasileiro. Em números, isso significa que 64% do conteúdo mapeado pelo pesquisador é, pelo menos, compartilhado por usuários brasileiros em outros canais de comunicação.
O Intercept contatou a assessoria de imprensa do Telegram, mas não obteve retorno. A Valeska Lourenção Advogados, que representa a companhia, revelou não ter autorização ou poderes para responder em nome do cliente.
“É muito fácil encontrar comunidades nazistas no Telegram. Basta digitar alguns termos genéricos na busca e aparecem canais e grupos abertos com símbolos, frases e conteúdos declaradamente inspirados no nazismo. Não é preciso convite, nem indicação”, aponta Ergon Cugler.
O funil da radicalização nazista
Que o número de brasileiros envolvidos com nazismo é alto, nós sabemos. Mas qual é o motivo? Segundo Cugler, há uma potencialização do algoritmo do Telegram que dissemina esse conteúdo por meio de anúncios, desencadeando uma espécie de efeito cascata para a recomendação de cada vez mais conteúdos neonazistas.
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Chamado de funil de radicalização, o Telegram transforma esse teor nazista em um produto lucrativo e passa a recomendar canais relacionados. Quem já estava propenso a consumir esses conteúdos fica mais próximo de uma teia de materiais semelhantes.
Na visão do pesquisador, o Telegram atua como um catalisador dos conteúdos neonazistas (Imagem: GettyImages)
“As recomendações de canais são baseadas somente no tópico geral de canais que você já segue”, aponta Cugler. Quem assina o Telegram Premium, de R$ 15,90, recebe ainda mais sugestões de canais relacionados, e como aponta o pesquisador, faz com que a plataforma lucre diretamente com a exposição de conteúdos nazistas.
Uma parte interessante da análise dessa pesquisa aponta que o auge dessas comunidades ocorreu durante o período da pandemia da COVID-19, especialmente em 2021. Apesar de uma desaceleração, esses grupos neonazistas são bem estruturados e não dependem necessariamente de muita frequência para se manter.
Como o Telegram lidará com o neonazismo?
Essa não é a primeira vez que o Telegram tem seu nome envolvido em polêmicas a respeito de grupos neonazistas. Em 2022, o próprio Intercept revelou que grupos antivacina na rede social serviam como um tipo de incubadora para conteúdos nazistas.
Em um monitoramento realizado pela antropóloga Adriana Dias, o número de células neonazistas subiu de 72 para 1.171 entre 2015 e 2022. Uma boa parte desse conteúdo surgiu entre outubro de 2021 e novembro de 2022.
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Com os projetos de regulamentação das redes sociais pelo Governo Federal, o Telegram e outras redes sociais coniventes com a disseminação de conteúdos como esse podem arrumar grandes problemas. Há alguns dias, o presidente Lula revelou que o Governo enviará ao Congresso um projeto de lei para regulamentar big techs e redes sociais no Brasil.
Além do conteúdo neonazista, o Telegram é conhecido por ser bastante utilizado entre criminosos para fraude, tráfico de drogas, exposição de malwares para hackers, redes de pedofilia, etc. O próprio CEO da plataforma, Pavel Durov, chegou a ser preso na França em 2024, e a rede é conhecida por sua cooperação mais áspera com autoridades.
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