
09 jan A CES está morrendo? A maior feira de tecnologia do mundo diminui o foco no consumidor
A CES (Consumer Electronics Show) tradicionalmente era uma espécie de “segundo Natal” para os apaixonados por tecnologia. O evento costumava ser o grande espaço para finalmente conhecermos os próximos videogames e computadores, as tecnologias de TV que íamos querer na sala de casa e aquele gadget que com certeza ia mudar a nossa rotina.
Mas agora que o momento das conferências passou e a gente vai parando para avaliar tudo o que vimos na CES 2026, o gosto é agridoce. Embora ainda tenha alguns lançamentos aqui ou ali, principalmente de marcas específicas, o que a gente realmente vê na maioria das apresentações é muito mais homogêneo e também diferente em essência. Servidores, racks de processamento, inferência, treinamento, desenvolvimento de softwares e agentes… e CEOs falando de ‘eficiência em data centers’ por horas e horas.
CES é uma sigla para Consumer Electronics Show, que podemos traduzir de forma livre para Apresentação de Dispositivos Eletrônicos de Consumo ou para Consumidores. Ou seja, a ideia principal na época em que o evento foi criado era ser justamente um espaço para que o mundo conhecesse a próxima geração de produtos palpáveis, dispositivos que poderíamos levar para casa um dia.
Mas, nos últimos anos, o evento parece ter virado uma reunião de condomínio da NVIDIA, AMD e outras gigantes para decidir quem vende mais e melhor a infraestrutura de inteligência artificial para outras empresas. Pelo menos até a edição de 2025 elas ainda disfarçavam um pouco, incluindo uma nova geração de GPUs aqui e de CPUs acolá, mas em 2026 parece que o teatro acabou, a máscara caiu e poucas se deram ao trabalho de tentar disfarçar: o dinheiro está na IA e é disso que elas querem falar.
O domínio das “Donas do Silício”
Especialmente nesta última edição da CES, é inegável que as “empresas de chips” de tornaram definitivamente as maiores estrelas. São elas as donas das apresentações mais aguardadas, longas e até do keynote de abertura oficial do evento como um todo.
Jensen Huang da NVIDIA e Lisa Su da AMD são as estrelas, mas os anúncios “empolgantes” não são mais para nós, consumidores finais. São GPUs de 40 mil dólares (como a linha Blackwell ou suas sucessoras), soluções de servidores, prateleiras modulares para supercomputadores que vão compor os datacenters onde as IAs vão crescer e expandir suas capacidades.
Quando a NVIDIA sobe ao palco hoje, ela não fala com o gamer que quer uma RTX 5060 realmente acessível ou a série RTX 50 Super. Ela está falando com o investidor e com o dono do data center – e não é por falta de novidades para o público, já que o DLSS 4.5, por exemplo, foi detalhado no mesmo período, mas fora dos palcos. A AMD segue um caminho similar, priorizando o silício que roda o ChatGPT em vez do processador que roda o seu jogo, deixando apenas alguns poucos minutos para falar por cima sobre sua nova geração de CPUs para AI PCs que chegarão às lojas a partir deste ano e gastando horas convidando ao palco clientes que estão aplicando suas tecnologias de infraestrutura em segmentos variados para trazer benefícios futuros.
Do trio de “gigantes do silício” que fizeram apresentações transmitidas online, só a Intel focou a maior parte do seu keynote para entrar em detalhes sobre sua nova geração de chips para produtos de consumo, incluindo laptops, PCs portáteis para jogos e outros aparelhos. Mas mesmo isso foi sempre ressaltando e louvando as capacidades desses produtos de rodar localmente as soluções de IA com mais eficiência energética.
O problema da “IA em tudo”
Essa mudança de direcionamento não afeta só as empresas responsáveis pela criação dessa infraestrutura. Gigantes dos produtos como Samsung, LG e Lenovo tiveram suas apresentações e as usaram sim para exibir muitos produtos físicos para consumidores. Só que o maior destaque das novidades deixou de ser inovações técnicas nos produtos em si.
Vemos uma geladeira que usa câmeras para falar com a IA da Google pela internet e melhorar capacidades que já tinha no ano passado – e que, a bem da verdade, provavelmente poderiam chegar aos modelos dessas gerações anteriores com uma simples atualização de software over-the-air. Outros produtos mais empolgantes, como um robô humanoide simpático com uma IA capaz de “orquestrar” seus eletrodomésticos ou um par de óculos inteligentes e um pingente de colar que têm a habilidade de permitir a interação com um “Super Agente de IA personalizado”, são apenas conceitos que podem ou não virar produtos reais no futuro – o famoso “vaporware”.
Forno com IA, escova de dentes com IA, espelho com IA. Os anúncios revelam uma corrida para ver quem coloca o selo ‘AI Powered’ em mais coisas, mas com utilidade real cada dia mais questionável em alguns casos. Alguma vez você aí, durante o trajeto até o trabalho, já parou e pensou: “Poxa, queria muito poder sobrepor flores de cerejeira artificiais ao que estou vendo através do meu para-brisas”?
Em vez de inovação de hardware real — como baterias melhores e máquinas que resolvem problemas de hoje — recebemos soluções de software que poderiam ser apenas um app, mas que as empresas usam para justificar o aumento de preço na feira. E quem está lá, pronto para subir ao palco de todas as conferências de fabricantes para falar como a parceria entre as marcas é essencial para o futuro conectado com IA? A tropa de executivos de NVIDIA, AMD, Intel e Qualcomm. Nem as marcas que mais focaram em produtos reais para 2026, como ASUS e sua sub-marca RoG, escaparam de algum momento do tipo.
Onde foram parar os produtos?
Nas suas origens, a CES ditava o que chegaria às lojas em seis meses, mas em anos recentes as coisas vêm mudando mais e mais de figura. Cada vez mais o que vemos no palco é a tentativa de nos vender uma promessa de benefícios futuros, e o objetivo é claro: quem conseguir capturar melhor a imaginação do público atrairá mais investimentos dos empresários.
Aí, se torna necessário vir aqui o chato que precisa relembrar a todos sobre a infinidade de promessas mirabolantes que ou nunca se concretizaram – alou, Siri com Apple Intelligence – ou que se tornaram reais apenas para revelarem quão inúteis ou pouco confiáveis eram – aqui estou olhando para vocês, resumos por IA nos buscadores.
As novidades reais em produtos para consumidores, salvo raras exceções, parece ter se concentrado em eventos próprios das suas fabricantes, e olhe lá. Enquanto isso, a CES não está perdendo o sentido para o mercado — ela está batendo recordes de negócios –, mas ela está perdendo o sentido para nós, consumidores.
O evento deixou de ser sobre ‘o que eu posso comprar’ para ser sobre ‘como o mundo vai processar dados’. É uma história triste que faz lembrar da E3, antes a maior vitrine do ano para lançamentos dos games, mas que foi esvaziada por outros eventos até a sua infeliz morte definitiva. Se o mesmo vai acontecer com a CES, se ela voltará às origens com foco renovado ou se ela eventualmente vai mudar de nome para assumir uma nova identidade como evento B2B sem disfarces, só o tempo dirá.
E você? Ainda se empolga com as conferências da CES ou acha que tudo virou uma grande propaganda de servidor e IA generativa? Comente nas nossas redes sociais.