Sites vão aprender a ‘conversar’ com IAs — e o Chrome saiu na frente

Se você já pediu para uma inteligência artificial fazer algo em um site — preencher um formulário, buscar uma informação, clicar em um botão — sabe que a experiência ainda é, no mínimo, frustrante. O agente de IA tenta ler a página como um humano leria, só que sem olhos: ele mergulha no código bruto do site, se perde no meio de milhares de linhas e, não raro, clica no lugar errado ou simplesmente trava. É como pedir para alguém montar um móvel sem manual de instruções, só olhando as peças espalhadas no chão.

O Google Chrome quer resolver isso. No dia 10 de fevereiro, o navegador liberou para testes o WebMCP, uma tecnologia que permite aos sites criarem uma espécie de “manual de instruções” pensado especificamente para agentes de IA. Em vez de deixar a inteligência artificial se virar para entender o que cada botão e campo de um site faz, o próprio site passa a dizer, de forma clara e padronizada: “aqui você pode pesquisar produtos”, “aqui você finaliza uma compra”, “aqui você agenda um horário”. É uma mudança de lógica — o site deixa de ser um labirinto e vira um cardápio organizado.

Na prática, o WebMCP funciona de duas formas. No modo declarativo, o desenvolvedor adiciona atributos HTML diretamente nos elementos do site — como toolname e tooldescription — descrevendo para o agente o que cada componente faz e como interagir com ele. No modo imperativo, tudo é definido via JavaScript, registrando e removendo ferramentas dinamicamente pela API do navegador. Nos dois casos, o agente deixa de interpretar HTML cru e passa a consumir um contrato estruturado — previsível, documentado e sem margem para alucinação.

Se a tecnologia pegar, pode ser tão transformadora para a relação entre IA e web quanto o Schema.org foi para buscadores. Lá atrás, sites aprenderam a se descrever para o Google entender melhor seu conteúdo — e isso mudou completamente a forma como encontramos informações na internet. Agora, a ideia é parecida, só que o “leitor” não é mais um buscador: é um agente de IA que precisa agir, não apenas indexar. O WebMCP está disponível em prévia antecipada para desenvolvedores interessados em prototipar, e um detalhe que vale o destaque: o release foi liderado pelo brasileiro André Cipriani Bandarra.

A era em que a gente precisava navegar manualmente por cada site pode estar com os dias contados. Só que, para isso acontecer, os sites precisam antes aprender a falar a língua das máquinas. O WebMCP é o primeiro dicionário.