
04 mar Óculos da Meta ‘vazam’ vídeos íntimos para moderadores humanos, diz denúncia
Vídeos de caráter privado ou até da vida íntima de usuários estão sendo capturados pelos óculos inteligentes da Meta e são vistos por funcionários humanos. Essa é uma das conclusões de uma reportagem investigativa dos jornais suecos Svenska Dagbladet e Göteborgs-Posten sobre os dispositivos.
De acordo com a matéria, os clipes capturados quando o usuário faz gravações por conta própria ou interage com a Meta AI são enviados dos servidores da companhia para empresas terceirizadas que ficam em outros países. Uma delas é a Sama, que fica no Quênia e têm grandes escritórios com filas de funcionários que passam o dia analisando clipes na tela do computador.
No serviço, esses moderadores humanos são responsáveis por assistir a todo o conteúdo e ajudar no treinamento da inteligência artificial (IA) do produto, a partir de um auxílio na identificação de objetos em tela. Várias plataformas fazem isso, apesar de não ser algo divulgado por dar a entender que, na verdade, o sistema não seria tão autônomo assim.
O principal problema? Talvez o usuário nem sequer saiba que, naquele momento, algum conteúdo estava sendo capturado pelos óculos inteligentes — e muito menos que esse material viajaria o mundo para ser assistido por uma pessoa.
O que é gravado pelos óculos inteligentes?
A reportagem ouviu funcionários dessas companhias, que permaneceram anônimos para manter o emprego. Eles relataram várias situações constrangedoras envolvendo a revisão do material e reconhecem que o usuário dificilmente gostaria de ter aquele conteúdo visto por alguém.
Alguns dos clipes visualizados incluem pessoas usando o banheiro, nuas, trocando de roupa ou até mantendo relações sexuais;Em outros casos, os óculos gravam documentos como registros médicos e até dados de cartões de crédito;Como o trabalho envolve também revisar as interações com a Meta AI, eles podem entrar em contato com perguntas sobre crimes;Além disso, a tecnologia de anonimização, que deveria borrar ou desfocar o rosto das pessoas envolvidas, nem sempre funciona como deveria e várias delas acabam totalmente visíveis.
Os óculos da Meta gravam vídeos somente mediante pedido do usuário, então é possível que algumas dessas gravações mais íntimas tenham sido por ativações acidentais ou feitas de propósito. Porém, a Meta AI também precisa usar a câmera para o reconhecimento de objetos e outras interações — e, nesses casos, os dados são processados pela infraestrutura da Meta.
A denúncia pode trazer problemas para a companhia em especial nos países da União Europeia, que têm leis de privacidade de dados mais rígidas. Até o momento, porém, não há declarações oficiais de autoridades sobre o assunto.
“Você fica pensando que, se eles soubessem sobre a quantidade dessa coleção de dados, ninguém ousaria usar os óculos“, disse um dos moderadores humanos entrevistados.
O que diz a Meta
Os jornais suecos enviaram várias perguntas sobre a gravação de clipes pela Meta AI, a moderação humana e o envio de conteúdos privados para servidores de outros países, mas a empresa não respondeu todos os questionamentos.
Em resposta, uma porta-voz da companhia disse apenas que, quando as funções em tempo real de IA ao estão sendo usadas, “nós processamos essas mídias de acordo com a Termos de Serviço e as Políticas de Privacidade da Meta AI“.
Nos termos de uso, consta que “em alguns casos, a Meta vai revisar suas interações com IAs, incluindo o conteúdo das suas conversas com ou mensagens para IAs, e essa revisão pode ser automatizada ou manual (humana)”.
As políticas ainda sugerem que a pessoa não compartilhe algo “que você não queira que as IAs usem ou retenham, como informações sobre tópicos sensíveis“.
Em breve, os óculos da Meta ainda podem ganhar a função de reconhecimento facial. Saiba mais por aqui sobre esse possível recurso.