
18 mar Crimson Desert brilha na sua ambição mas ofusca a si próprio com suas inspirações
Crimson Desert é um daqueles títulos que impressiona bastante à primeira vista, especialmente por suas grandes ambições. Ao longo dos 7 anos desde seu anúncio, já vimos a Pearl Abyss mostrar e prometer muito nessa jornada que divide o mesmo universo de Black Desert Online, então não é de se estranhar que algumas dúvidas tenham surgido no meio do caminho. O título de ação e aventura em um enorme mundo aberto sempre pareceu focar bastante em exploração, resolução de puzzles e em um sistema de combate bem profundo, mas a questão nunca foi se ele seria capaz de entregar tudo isso, e sim se entregaria essas promessas com a qualidade de outras grandes franquias.
Nós tivemos a oportunidade de jogá-lo de forma antecipada e contamos todas as nossas impressões sobre Crimson Desert na análise a seguir. Confira!
Alguns pontos importantes
Antes do review em si, acho que vale mencionar alguns pontos para termos total transparência. Eu recebi uma cópia de Crimson Desert algum tempo após o esperado e tive 11 dias para jogar o máximo possível. Como se trata de um jogo que pode passar das 100 horas para zerar sua campanha principal e fazer uma leve exploração secundária, é claro que não tive o tempo de ver tudo, mas sinto que nesse tempo foi possível ter uma noção muito boa do que o jogo tem a oferecer no geral. Durante esse período, eu encontrei alguns bugs e até crashes, mas a performance foi boa na maior parte do tempo, sendo possível notar que o estúdio se preocupou bastante com a otimização do título.
O que é importante saber é que o game rodará com o Denuvo no PC, o famoso anti-cheat que costuma ser bastante criticado por jogadores e que pode trazer uma queda de performance significativa em muitos títulos. Se isso for um problema para você, a minha recomendação é esperar relatos mais detalhados sobre como o anti-cheat pode impactar a performance do game em um PC com configuração mais parecida com o seu. Infelizmente, não tive como testar o jogo no console, então não sei como sua otimização está nessas plataformas.
Por fim, acho que também é bom dizer que o game possui localização de texto em nosso idioma, mas a Steam configurou o meu jogo em inglês desde o início e eu esqueci de trocar essa opção. Por isso, durante essa análise, vou usar os termos e nomes da forma que eles apareceram no jogo em inglês em vez da versão traduzida para o português.
A trama realmente importa?
É normal que a trama tenha um grande foco em jogos como Crimson Desert e fica claro bem cedo que esse parecia ser um ponto importante para o estúdio. Para a sorte de quem nunca jogou o MMO, o novo jogo não exige que você saiba nada sobre esse universo e funciona como uma história individual. Essencialmente, acompanhamos o protagonista Kliff, que pertence ao clã dos Greymanes, depois que ele e seus companheiros são atacados em uma emboscada pelos seus inimigos do Black Bears. Apesar de ter sido morto nesse ataque, Kliff é ressuscitado por aliados misteriosos de uma terra nos céus, ganha poderes e se encarrega de reencontrar seus amigos para lidar com uma força maligna.
Ao longo dessa aventura, montamos nosso acampamento, ajudamos muita gente e até podemos encontrar novos personagens jogáveis, cada um com características e habilidades únicas de batalha. Infelizmente, não demora muito para percebermos que a trama não é o ponto forte de Crimson Desert. Ela não é particularmente interessante e, em muitos momentos, parece que é mais um pano de fundo para vermos coisas legais acontecendo na tela. O mesmo pode ser dito de NPCs com quem você conversa ou missões secundárias que precisa realizar, o que eu acho uma pena, já que esse é um dos meus elementos favoritos em games como esse.
Eu até acho que isso melhora após algum tempo, mas não a ponto de eu ter sentimentos mais fortes pela história ou o que estava acontecendo com os personagens à minha volta. Se você não liga muito para a trama e quer focar mais na exploração, puzzles e combate, isso definitivamente não será um ponto negativo muito forte, já que o game entrega uma experiência bem melhor nesses três pilares.
Um mundo de detalhes
Não há dúvidas de que o mundo criado pela Pearl Abyss é enorme e cheio de coisas para você explorar e encontrar. Dá para perceber o nível de detalhes colocado até nas pequenas coisas, o esforço para que o mundo parecesse vivo e orgânico. Eu diria que ao mesmo tempo que isso funciona bem em certas áreas, em outras ele também transparece uma certa superficialidade. Eu acredito que isso aconteça muito mais pela escala incrível desse mundo do que pela falta de atenção do estúdio.
Exemplos disso são que alguns NPCs possuem uma rotina, mas outros ficam estáticos na mesma pose, não importando a hora do dia. Objetos do cenário, como um tronco servindo de ponte de um rio, quebram quando você os ataca ou passa por cima, mas logo depois voltam a aparecer como se nada tivesse ocorrido. Há muitos NPCs em tela fazendo coisas diferentes, mas de repente eles começam a apresentar a exata mesma animação se estão assustados ou prontos para brigar com você. Eu poderia citar inúmeros outros casos parecidos, mas acho que isso é o suficiente para entender esse ponto. Não é nada grave, mas são pequenos detalhes que não passam despercebidos em um game que exige tanto do seu tempo.
Falando nisso, o que me surpreendeu foi o quanto demora para Crimson Desert realmente se abrir ao jogador. Você pode passar por 20 ou 30 horas do game facilmente até sentir que ele está entregando o que você esperava. Dá para ficar muito mais tempo que isso só na primeira área do game aprendendo diferentes mecânicas, fazendo favores chatos para NPCs e lutando contra inimigos que mal precisam mais do que dois golpes para morrerem. Depois desse período é que o título realmente mostra seu potencial e fica bem mais divertido.
Na minha opinião, é exatamente nisso que ele pode perder alguns potenciais fãs, já que não é todo mundo que gosta de um ritmo mais lento e não são todos que possuem o tempo para se dedicar a um jogo dessa escala. Digo isso até porque a curva de aprendizado, especialmente em relação ao sistema de combate, pode ser bem punitiva e também requisitar alguma dedicação dos jogadores.
Caso você não tenha problemas com isso ou consiga vencer essa barreira inicial mais tediosa do jogo, Crimson Desert tem muito a oferecer. Se você quisesse, poderia passar horas e horas apenas explorando o mundo e encontrando puzzles difíceis para resolver, por exemplo. Por si só, isso já pode ser satisfatório, especialmente algo que se tornou tão raro encontrar um game desse que se sente confortável o suficiente para fornecer enigmas desafiadores sem ficar te oferecendo a resposta de alguma forma.
Uma colcha de retalhos
Um aspecto conhecido mesmo na época em que só tínhamos trailers ou as prévias sobre o jogo é que Crimson Desert se inspira muito em outros games. Isso é perfeitamente normal e qualquer título atual faz isso, só aqui é até difícil de esquecer ou ignorar de onde vêm essas inspirações. Há mecânicas e elementos tirados diretamente de Zelda: Breath of the Wild e Tears of the Kingdom, Red Dead Redemption 2, Dragon’s Dogma, The Witcher 3 e alguns outros. Pode ser algo mais pessoal da minha perspectiva, mas eu senti que essa colcha de retalhos de diversas mecânicas de diferentes games estavam formando um verdadeiro Frankenstein em forma de jogo.
Isso me deixou com a sensação de que Crimson Desert nunca realmente apresentou sua própria personalidade, aquele elemento que o tornaria verdadeiramente único. Isso não necessariamente é ruim para o jogo, já que as mecânicas e elementos que ele usa, ainda funcionam para o gameplay e o deixam divertido. Acredito que meu problema com isso, além do que já falei, é que o jogo também nunca faz algo melhor ou mais inovador com essas mecânicas. Isso me traz novamente o senso de superficialidade que mencionei antes.
Claramente, há muito o que se ver e o que fazer, o que te deixa com uma quantidade absurda de coisas nas mãos. Só que a consistência na qualidade dessa quantidade é que deixa a desejar. Se você não jogou os games que eu mencionei ou até jogos independentes mais simples que focam em combate e sobrevivência, isso provavelmente nem será um fator na sua mente. Ainda assim, é um ponto a se considerar, já que eu acredito que Crimson Desert poderia pegar elementos emprestados e ainda oferecer uma perspectiva mais única em como abordar tudo isso.
Um combate profundo, mas não para todos
Eu sei que um dos fatores que mais chamou a atenção do público foi o combate de Crimson Desert. Felizmente, nesse ponto, a Pearl Abyss realmente acertou bastante. O ritmo mais lento no início do game te permite aprender o básico e como inserir novos combos e habilidades aos poucos, especialmente ao enfrentar inimigos mais fracos ou chefes menos punitivos. Como há diferentes personagens jogáveis, você realmente precisa de um tempo extra para se acostumar com tudo e aprender a lutar de forma mais eficiente.
Pode parecer exagero dizer isso, mas acredite: os inimigos e chefes que aparecerão em seu caminho não estão ali para brincadeiras. Eles podem ser realmente desafiadores e exigir não só que você domine o sistema de combate, mas que também aprenda bem seus padrões de ataques. Eu não diria que os chefes são tão sofisticados como em jogos da From Software, mas definitivamente precisam de mais tempo que qualquer bicho que enfrentamos em outros jogos mais similares à Crimson Desert.
Minha única crítica é que o mundo ainda está repleto de inimigos tediosos, tanto no design como nas lutas. Alguns me lembraram dos inimigos que vemos em MMOs, o que não seria tão distante das origens da franquia, considerando Black Desert Online. Fora isso, alguns chefes ficavam repetindo sempre os mesmos dois ataques ou pareciam muito como uma esponja de dano, mas isso aconteceu até menos do que eu esperava para um jogo com 76 chefes.
Isso talvez também afaste pessoas que não gostem desse foco em bosses mais difíceis, algo que eu compreendo totalmente. Isso seria uma pena considerando que o game possui várias outras qualidades, mas exige que você enfrente esses inimigos mais parrudos para prosseguir.
Vale a pena?
Crimson Desert é um jogo muito complicado de apenas dizer se vale a pena ou não. A resposta mais simples que posso dar é que ele não é um jogo que vai funcionar para todo mundo, mas que pode ser o jogo da vida de alguém que ame o que outras pessoas podem considerar como seus defeitos ou deficiências. Se você não joga muitos games que misturam combate, sobrevivência e exploração, talvez se impressione por elementos que Crimson Desert possui, mas cuja execução possa parecer superficial o grupo oposto de pessoas.
É claro que além de tudo o que já foi mencionado, o jogo tem problemas chatinhos, como menus confusos e um sistema de inventário que precisa de melhorias, mas ainda é um jogo muito divertido e que merece sua atenção em 2026. Eu acredito que o que você precisa levar em consideração é se possui o tempo necessário para dedicar ao jogo, que como mencionei passa das 100 horas, e se gosta das mecânicas que ele oferece. E não há dúvidas de que ele realmente oferece muito, a minha dúvida é apenas se não seria melhor ter menos conteúdo e mais personalidade.
Nota do Voxel: 78
Pontos positivos:
Um mundo vasto, cheio de detalhes interessantes a serem exploradosSistema de combate complexo e cheio de possibilidadesO jogo estava bem otimizado e performou bem ao longo de toda a aventuraOs puzzles são realmente difíceis e legais de se resolver
Pontos negativos:
O game pega elementos de muitos jogos, mas nunca demonstra sua própria personalidadeOs menus são confusos de começo a fim, atrapalhando o ritmo do gameTrama e NPCs são sem graça, servem mais pano de fundo para o resto do jogoO game demora para se abrir e precisa de uma dedicação de tempo que nem todo mundo tem