
19 mar Data center do TikTok: entenda o projeto bilionário que está em andamento no Ceará
O município cearense de Caucaia é conhecido pelas belas praias, ser um polo na prática do kitesurf e local do Parque Estadual Botânico do Ceará. Só que a região agora também está no centro de um projeto que é ao mesmo tempo promissor e polêmico envolvendo o TikTok.
Isso porque o Complexo Industrial e Portuário do Pecém (Cepp), entre Caucaia e o município de São Gonçalo do Amarante, foi escolhido para abrigar o primeiro data center da rede social chinesa no Brasil.
Com o estabelecimento do data center, a plataforma vai abrigar no país uma série de servidores que atuam no tráfego e armazenamento de dados, em especial aqueles envolvendo os usuários brasileiros — atualmente, são cerca de 111 milhões de perfis nacionais ativos na rede social.
Porém, a iniciativa ambiciosa também levanta muitas preocupações, desde a alta demanda energética e impactos ambientais até o desequilíbrio nos investimentos em comparação ao auxílio a comunidades próximas, que inclui uma população indígena.
Como funcionam os data centers?
Os data centers são a base da infraestrutura digital contemporânea, sustentando o processamento e a hospedagem de aplicações que vão de plataformas corporativas até serviços em nuvem, IA e comunicação em larga escala. A instalação deles envolve definições estratégicas não apenas sobre a localização, mas também o tipo desse estabelecimento.
Um data center pode ser instalado dentro de uma organização (Enterprise), com uma infraestrutura compartilhada (Colocation) ou ser operadoras por referências no setor de nuvem (Hyperscale). O data center do TikTok no Brasil é do tipo Hyperscale e dedicado a um único “cliente”, feito sob medida para a plataforma chinesa.
Esse conjunto de servidores se divide também em relação ao sistema de resfriamento que é utilizado para manter os equipamentos em uma temperatura controlada. As principais alternativas são sistemas baseados em ar e em líquido, com diferentes níveis de eficiência, prós e contras.
O resfriamento a ar é o modelo mais tradicional e usa equipamentos para distribuir ar frio pelo ambiente e criando um fluxo térmico. Já o resfriamento líquido remove calor de forma mais eficiente ao atuar diretamente nos componentes e pode ser feito por múltiplas técnicas, de levar o líquido aos processadores até manter os servidores submersos em líquidos.
O colosso do TikTok no Pecém
O data center da rede social criada pela ByteDance foi aprovado em paralelo a uma série de negociações comerciais bilaterais entre Brasil e China. O projeto era conhecido desde maio de 2025, mas só em dezembro foi anunciado oficialmente e em detalhes. Já as obras na região começaram em janeiro deste ano.
O empreendimento será gerido por diferentes partes, cada uma atuando dentro da sua especialidade. O fundo Pátria Investimentos, a partir da empresa especializada Omnia, cuidará da construção e operação do data center. Já a companhia geradora de energia renovável Casa dos Ventos é a responsável pela realização de captação e distribuição energética. A própria ByteDance, além do dinheiro, vai participar da fase inicial do desenvolvimento do data center.Ao todo, são dois prédios com mais de 70 mil metros quadrados cada um, com consumo energético estimado de até 300 megawatts (MW);O ministro da Educação, Camilo Santana, o presidente Lula e o governo do Ceará, Elmano de Freitas no evento de anúncio do aporte. (Imagem: Governo do Estado do Ceará/Reprodução)O investimento estimado é de R$ 200 bilhões só para o primeiro data center. Deste total, pouco mais da metade (R$ 108 bilhões) será destinado para a aquisição de equipamentos até 2035, enquanto o restante envolve manutenção, expansões e melhorias a partir da próxima década;Caso não tenha novas barreiras regulatórias, o primeiro ambiente com processadores será entregue à ByteDance em setembro de 2027;Além disso, a operação é em uma Zona de Processamento de Exportação (ZPE), o que significa isenção de vários impostos e redução em outras taxas;
A parceria com o Brasil inclui a promessa da ByteDace de abrir mais quatro data centers na mesma região, em um investimento de R$ 349 bilhões ao todo. O país busca ainda atrair outras empresas para construírem espaços para servidores em outras áreas do território.
Impactos ambientais são incertos, mas existem
O setor de data centers modernos, vários deles utilizados para processamento de sistemas de IA, está em uma fase de questionamentos por setores da sociedade. O motivo é a alta demanda energética desse tipo de local, tanto em consumo de água quanto em eletricidade.
De acordo com a Casa dos Ventos, o data center no Ceará vai utilizar apenas energia renovável eólica e não terá impactos na rede elétrica local, justamente o problema mais comum em pequenas cidades dos Estados Unidos, que tem elevado até tarifas residenciais.
Ainda assim, os valores assustam e mostram o quanto esse setor demanda em termos de infraestrutura energética: 300 MW é o suficiente para abastecer uma cidade de 2,2 milhões de pessoas e, se fosse um município, seria um dos de maior consumo em todo o país.
A obra de grandes proporções ainda preocupa comunidades indígenas que vivem nas proximidades do complexo de Caucaia. Segundo uma reportagem do jornal local O Povo, os anacés já encaram falta de água e luz naturalmente — e agora serão “vizinhos” de um projeto que terá justamente o acesso a ambos em abundância.
Consumo de água e questionamentos regulatórios
Outra questão relativa ao ambiente está no consumo de água. Data centers exigem uma enorme quantidade de líquidos circulando em toda a estrutura, em especial para o resfriamento dos equipamentos. Os servidores operam sob alto desempenho, o que significa também um aumento de temperatura que deve ser controlado.
Servidores operam de forma ininterrupta e podem chegar a altas temperaturas. (Imagem: Divulgação/Google)
De acordo com o anúncio oficial do projeto, o data center terá um sistema de resfriamento “baseado em circuito fechado de reuso de água”, que prevê menor consumo e sem perdas por evaporação.
Além disso, ele utiliza uma tecnologia chamada PG25, que atua diretamente nos chips e reduz a exigência de resfriamento constante. Nessa técnica, a água absorve o calor das máquinas, é resfriada em contato com ar e repete o ciclo para absorver mais calor — um processo em loop que reduz o consumo e a necessidade de reabastecimento.
A operação do data center apresentou um Relatório Ambiental Simplificado (RAS) para obter a aprovação legal que falta para o início das obras. Porém, a licença prévia nacional e da Secretaria de Meio Ambiente do Ceará (Semace) agora é questionada pelo Ministério Público Federal (MPF).
Segundo uma perícia feita no início de dezembro, o projeto tem falhas na apresentação dos dados e omite números importantes que confirmariam problemas relacionados à obra. Em resposta, a ByteDance até o momento defende que o processo é conduzido com aval da legislação e da Semace.
Em versões atualizadas do estudo de viabilidade, o data center confirmou que o consumo hídrico será de 88 m³ diários — quase o triplo do que número citado para a obtenção das licenças, e que pode chegar a sete vezes mais do que o previsto.
Como mananciais subterrâneos serão utilizados no processo e podem não ser o suficiente para atender o data center e a região como um todo, a preocupação sobre eventuais prejuízos para comunidades próximas aumenta.
Comunidades próximas temem a obra
No anúncio do data center, o governador do Ceará, Elmano de Freitas, confirmou que as empresas devem investir R$ 15 milhões por ano “para o desenvolvimento das comunidades que moram no entorno do Complexo do Pecém” como parte do acordo.
As empresas preveem ainda a geração de mais de 4 mil postos de trabalho entre temporários e permanentes, ao menos na primeira fase de operação. Porém, essas promessas não são o suficiente para atender as demandas e denúncias.
A região de Caucaia possui registros de estiagem e seca nas últimas duas décadas e isso pode aumentar em caso de consumo excessivo das fontes próximas.
A escola indígena anacé do Cauípe: estrutura da população local é precária. (Imagem: Paulo Anacé/Facebook)
O The Intercept também aponta os questionamentos de moradores de comunidades rurais vizinhas sobre o consumo de água e outras etapas da regulação, como a aprovação para construir uma ponte em uma área de proteção permanente da região.
Além disso, denúncias nos EUA apontam que a concentração de nitratos na água potável de uma cidade dos EUA que abriga um grande data center pode estar relacionado até ao aumento de câncer e abortos entre a população — o que acende um sinal de alerta nesse tipo de operação, mesmo que a correlação ainda não tenha sido confirmada.
Data center cearense tem propostas e benefícios
Ao entrar em operação plena, projeto tem a proposta de ser o maior data center de um único cliente do Brasil e o primeiro voltado para a exportação, ou seja, tratamento de dados de outras regiões.
Ao todo, as atividades podem gerar exportação média de R$ 16 bilhões ao ano, sem contar receitas tributárias locais. Além disso, ele pode reforçar o Ceará como polo de tecnologia e inovação, atrair demanda por serviços locais, mesmo que pontual, em áreas como construção, logística, segurança, manutenção e TI. Ao todo, são esperados mais de 20 mil postos de trabalho diretos e indiretos.
“Desde o início, estruturamos o projeto com base em uma relação transparente e colaborativa com o entorno e com o estado. Nosso objetivo é construir, junto aos parceiros locais, uma operação sólida, sustentável e alinhada às necessidades da região, gerando valor de longo prazo para o Ceará”, defende o CEO da Omnia, Rodrigo Abreu.
Em defesa dos possíveis impactos ambientes, que é uma preocupação constante envolvendo o tema. as empresas organizadoras argumentam que há iniciativas de sustentabilidade e impacto reduzido no projeto, como a já citada tecnologia de circuito fechado e a energia renovável eólica como principal geradora.
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