
28 abr A Intel está dando seu melhor, agora precisa sobreviver aos erros da Microsoft
A Intel finalmente conseguiu. Depois de anos correndo atrás da eficiência por watt dos chips da Apple, os novos processadores Core Ultra Série 3, especialmente as versões X com gráficos potentes integrados, entregam o que prometeram: desempenho bruto com uma bateria que dura o dia todo.
O hardware dos PCs nunca foi tão bom quanto agora. No entanto, ao mesmo tempo, a experiência de uso nunca foi tão instável, inchada e desagradável. No mesmo passo em que Intel, AMD, Qualcomm e as fabricantes dos laptops em si estão atingindo novos níveis de excelência com seus hardwares, as atualizações lançadas pela Microsoft para o Windows são regular e sistematicamente mais e mais caóticas do começo de 2025 até agora, já no fim do primeiro trimestre de 2026. Se eu fosse a Intel ou qualquer outra dessas empresas, eu estaria… Irritado, para dizer pouco.
Panther Lake: a Intel de volta à disputa da eficiência
Estou citando bastante da Intel em particular porque o caso deles é bastante emblemático e porque eles estão precisando e merecendo uma boa vitória esse ano. Desde que a Apple lançou o seu chip M1 para Macbooks e outros computadores da marca em 2020, a Maçã conseguiu atingir níveis de desempenho computacional, gráfico e principalmente de eficiência energética que colocaram gigantes como a Intel em uma situação complicada. Mesmo com décadas de domínio nesse mercado, de repente um competidor tinha restabelecido os níveis do que era esperado de chips de ponta.
De lá para cá, a Intel teve que suar a camisa para reinventar seus processadores e tentar reduzir essa dianteira da Maçã. O lançamento dos Snapdragon X Elite da Qualcomm lá para 2024 aumentou mais ainda a pressão. Agora em 2026, com o anúncio dos chips Core Ultra Série 3 baseados na arquitetura Panther Lake, ainda não dá para dizer que eles voltaram ao topo do jogo, mas pelo menos a disputa vai voltar a ser interessante. Já deu para ver a confiança e empolgação nos olhos e na fala do executivo Jim Johnson, que anunciou oficialmente os chips no palco da CES 2026.
Os novos processadores de Intel conseguem atingir um nível de eficiência energética que torna mais fácil fazer laptops finos com baterias de longa duração e sem thermal throttling, que é quando o sistema esquenta e precisa limitar de propósito o desempenho do chip para evitar danos por superaquecimento. E nas versões X dos Core Ultra Série 3, que incluem gráficos integrados mais poderosos, a promessa é finalmente conseguir desempenho similar ao de GPUs dedicadas de entrada.
No total, a empresa promete 60% a mais de desempenho multithread, melhoria de 77% em jogos e autonomia de bateria de até 27 horas. Com isso, pela primeira vez em anos, você teria a chance de comprar um Dell XPS ou um ASUS Zenbook sem placa de vídeo dedicada e não sentir que está sacrificando muita performance em relação a um MacBook. Só que aí vem a Microsoft para jogar um balde de água fria nessa empolgação.
O “Copilot OS” e o desfile de bugs da Microsoft
Diferente da Apple, que hoje controla todos os aspectos do desenvolvimento dos próprios computadores, incluindo construção, componentes e sistema operacional, em praticamente todos os outros casos os laptops são frutos de parcerias entre 3 empresas ou mais. Fabricantes como HP, Dell, Lenovo, ASUS, LG e Samsung investem para criar o melhor hardware geral. Gigantes como Intel, AMD e Qualcomm entregam chips melhores e mais eficientes. E a Microsoft entrega o software que vai rodar em cima disso tudo. Por mais que Linux exista, ainda não é simples e intuitivo o suficiente para a maioria das pessoas.
Só que especialmente de 2025 para cá, a Microsoft parece estar obcecada em transformar o Windows em um “Copilot OS”. E essa obsessão chegou a um ponto que está sendo um verdadeiro tiro no pé da empresa. No espaço dos últimos 12 meses, a Microsoft passou por: falhas que impedia a inicialização do sistema; levou bastante tempo para resolver problemas de desconexão ao Desktop Remoto; enviou uma atualização que fez o Copilot morrer; aí outra que duplicava o gerenciador de tarefas cada vez que você tentava fechar; criou um bug de recuperação de sistema que basicamente travava máquinas na tela de inicialização; quebrou seu modo escuro com um flash branco que acontecia ao abrir o explorador de arquivos; e mais recentemente chegou a enviar uma atualização que empacava no meio da reinicialização simplesmente porque não vinha com todos os arquivos necessários.
Teve gente mostrando até que o botão do menu iniciar no sistema parou de funcionar. E esses são só alguns destaques entre o verdadeiro “desfile da escola de samba Unidos do Buguinho” e quedas de desempenho em que o Windows 11 se tornou ao longo do último ano. Tudo isso em prol de tentar enfiar a IA até no bloco de notas, o que absolutamente ninguém pediu.
Adicionando ofensa à injúria, o sistema da Microsoft ainda é afligido por vários outros problemas: a busca do sistema, que mostra mais propagandas e sugestões da web do que arquivos que estão no seu próprio PC; truques para fazer usuários mudarem sem querer seus navegadores e buscadores padrão depois de atualizações; links que te forçam a usar o Edge e o Bing e muito mais. Essas últimas queixas não são questão de falhas pontuais e acidentais. São frutos de decisões conscientes da empresa.
A Microsoft já passou por sua dose de crises nos seus 40 anos de história, mas até eles sabem que agora chegaram a um verdadeiro ponto de ruptura da confiança dos seus usuários. Fontes internas da empresa falaram com veículos de imprensa internacionais sobre mudanças internas da companhia, que redirecionou seus engenheiros para que se concentrem em resolver os problemas do sistema. Mas enquanto isso não acontece, o que vemos são empresas como a Intel entregando chips melhores, mas o Windows consumindo esses ganhos com processos de IA desnecessários ao mesmo tempo que outras partes do sistema caem aos pedaços, quebrando a confiança dos usuários.
A ameaça do MacBook Neo e a integração vertical
Enquanto isso, o timing da Apple com o Macbook Neo chega a ser quase sobrenatural. O novo laptop mais acessível da Maçã, pelo menos para quem ganha em dólar, pode até ter uma tela inferior, usar um chip de smartphone e apresentar um acabamento que não está no mesmo nível dos irmãos mais caros, mas o sistema operacional entrega outra experiência e o ecossistema continua sólido.
Não sou particularmente fã da Apple (na verdade, tendo a criticar bastante as escolhas conservadoras, preço abusivo e mania de controle da Maçã), mas é preciso reconhecer o que a Microsoft está fazendo de errado e o que a dona dos Macs acerta. A Apple integra verticalmente seus produtos, trabalhando ao mesmo tempo do hardware geral, no chip utilizado e no MacOS, o que permite fazer mais com menos e entregar muito mais estabilidade.
Ao mesmo tempo, a experiência do sistema do MacOS é muito mais rápida, estável, intuitiva e sem ficar enchendo a paciência do usuário para assinar isso e aquilo, experimentar tal e tal serviço ou enfiar IA em tudo. Talvez seja porque a Apple ainda não resolveu de vez o seu atraso na corrida da IA, mas com um pouco de cuidado isso deve continuar no futuro próximo.
Na realidade brasileira, com os preços praticados pela Maçã e o poder de compra limitado que nós temos, provavelmente nem o Macbook Neo deve mudar muito o ponteiro do mercado a favor da Apple. Mas, no mercado global, em que as coisas são um pouco mais equiparadas, você acha que o consumidor vai preferir um PC com hardware nota 10, mas software nota 5, ou outro com hardware nota 7, mas software nota 10?
Existe luz no fim do túnel para o Windows 11?
O meu ponto aqui é que a Intel e as fabricantes fizeram a parte delas, e agora a bola está na quadra da Microsoft. Se ela não estabilizar de verdade o Windows 11, vai entregar de bandeja o mercado de laptops premium para a Apple, e o dos custo-benefício para a galera do Linux, que também está ganhando espaço no último ano.
A Microsoft sabe disso e já até se pronunciou publicamente falando que o foco de 2026 vai ser melhorar a performance, confiabilidade e experiência geral do Windows, além de parar de enfiar IA aonde não precisa. Falando ao site the Verge, o presidente da divisão Windows e Dispositivos, pavan Davuluri, confirmou que a Microsoft quer “melhorar o Windows de formas que sejam significativas para o usuário”. Segundo ele, o foco da equipe agora está em melhorar pontos que são frequentemente falados pela comunidade, como performance, confiabilidade e experiência geral do sistema. E isso pode incluir alterar e até remover recursos de IA onde eles não fazem sentido.
Pelo menos o histórico da Microsoft mostra que nada motiva a empresa a melhorar o Windows e seus dispositivos mais rapidamente do que o surgimento de concorrentes promissores. O MacBook Air convenceu a empresa a lançar uma iniciativa de Ultrabooks em parceria com a Intel. O iPad levou a dona do Windows a trabalhar nos seus próprios tablets, e até o Chromebook levou a companhia a responder criando versões mais leves do Windows. Provavelmente não é atoa que o anúncio público da Microsoft sobre o novo foco em melhorar o sistema tenha vindo menos de duas semanas depois do anúncio do Macbook Neo.
Segundo a Amazon, o ranking global de vendas de laptops no final de 2025 já teve a primeira e a segunda posição dominadas pelos modelos de 13 e 15 polegadas mais recentes do Macbook Air. Abaixo deles, o top 5 inclui apenas modelos da HP e Lenovo abaixo dos US$ 500 dólares. Uma posição perfeita para a Apple tomar com seu novo modelo mais barato, que compete justamente nessa faixa. A menos que as fabricantes do lado Windows da força e principalmente a Microsoft realmente façam um esforço real.
Eu cheguei a entrar em contato com a Intel para pedir um posicionamento sobre toda essa situação, mas como esperado, eles preferiram não comentar questões relacionadas a terceiros. Isso já faria sentido se o terceiro fosse uma empresa qualquer, e faz mais ainda sendo uma parceira tão grande. Enquanto isso, realmente torço para que o recente comprometimento da Microsoft em resolver seus problemas e focar em melhorias para o sistema em si seja real, e não só executivos falando para acalmar geral. Além de votar com as nossas contas bancárias, isso é tudo o que podemos fazer do nosso lado como consumidores.
E você: acha que a Microsoft vai conseguir recuperar a confiança perdida, ou já é tarde demais e a tentação da IA é grande demais? Hora de aprender a usar Linux? Ou o MacOS, talvez? Contribua com o debate nos comentários e continue acompanhando o TecMundo para mais reflexões e as principais notícias do mundo da tecnologia.