
29 abr Brasil recebe mais de 1 bilhão de ligações abusivas por mês
O Brasil está recebendo mais de 1 bilhão de ligações abusivas por mês, e o volume virou um problema estrutural, segundo novo estudo do Idec (Instituto de Defesa de Consumidores). Com média de 305,7 mil chamadas por minuto, o país se consolidou como líder mundial em telemarketing indesejado, em um cenário que já afeta a rotina e o comportamento dos consumidores.
Levantamento divulgado nesta terça-feira (28) mostra que 92% das pessoas que recebem essas ligações não têm qualquer relação com as empresas que entram em contato, o que indica uso massivo e irregular de dados pessoais, muitas vezes sem consentimento claro.
Entre junho de 2022 e dezembro de 2024, foram mais de 1 bilhão de chamadas abusivas por mês, o equivalente a 743 ligações por habitante no período. Só em 2025, houve 161,16 bilhões de chamadas curtas, de até seis segundos, geralmente feitas por robôs para testar se um número está ativo.
Mesmo com bloqueios regulatórios, cerca de 24,1 bilhões dessas chamadas chegaram efetivamente aos consumidores e, no total, o país já acumula mais de 126 bilhões de ligações automatizadas.
Segundo o Idec, o problema já ultrapassou o nível de simples irritação. O excesso de ligações tem provocado perda de tempo, estresse e até mudanças no comportamento da população, como evitar atender números desconhecidos.
Chamadas de spam são um problema no Brasil há anos, apontam dados da Anatel. (Imagem: Kaspars Grinvalds/Shutterstock/Reprodução)
Há casos extremos que ilustram esse cenário, como o de um consumidor que chegou a receber 65 ligações em um único dia útil. Esse tipo de saturação começa a afetar até serviços essenciais, com equipes de saúde relatando dificuldade para falar com pacientes que passaram a ignorar chamadas telefônicas.
O estudo também destaca que aposentados e idosos estão entre os mais afetados. Há registros de ofertas agressivas de crédito consignado feitas sem consentimento adequado, muitas vezes com base em dados obtidos de forma irregular.
A estimativa é que mais de 4 milhões de aposentados e pensionistas tenham sido prejudicados por esse tipo de abordagem, frequentemente marcada por falta de informação clara e indução ao erro.
E a lei?
Apesar de iniciativas recentes de órgãos reguladores, o Idec avalia que as medidas atuais são insuficientes. Para a entidade, as ações são fragmentadas e não atacam o principal problema: o uso de dados pessoais sem autorização.
“O que vemos hoje é um sistema que ainda permite o uso de dados pessoais sem consentimento claro e informado. Isso sustenta um modelo de telemarketing que viola direitos e impacta a vida de milhões de brasileiros diariamente”, explicou Julia Abad, coordenadora do programa de Telecomunicações e Direitos Digitais do Idec.
Diante desse cenário, o instituto defende uma mudança de modelo e a principal proposta é que o telemarketing ativo só seja permitido com autorização prévia do consumidor, o chamado modelo opt-in. O pacote inclui ainda limitar horários de ligações (das 8h às 18h em dias úteis), restringir o uso de robôs, criar uma plataforma nacional para gestão de consentimento e reduzir o uso da justificativa de “legítimo interesse” pelas empresas.
O tema também está em discussão no Congresso Nacional, com projetos de lei que tratam do controle de chamadas abusivas e do uso de dados pessoais. Ao fim de 2025, a Anatel apontou que todas as operadoras deveriam aderir ao programa “Não Me Perturbe”, uma base de dados de pessoas que não querem mais receber chamadas indesejadas.