Funerária brasileira faz caixões do Super Mario e fãs temem processo: “Não temos autorização”

O inevitável momento da morte pode ser assustador para muitas pessoas, mas é o modelo de negócios de uma companhia com mais de 60 anos chamada Urnas Bignotto. A empresa de Cordeirópolis, interior paulista, é uma das maiores fabricantes de urnas funerárias do país, o que pode levantar a questão: por que diabos estamos falando disso aqui no Voxel, um site de games?

Recentemente, a Urnas Bignotto viralizou ao apresentar uma linha de caixões temáticos inspirados em personagens de videogame. O vídeo em questão, que foi compartilhado nas redes do Voxel, mostra uma coleção com modelos baseados no universo de Super Mario Bros., incluindo versões do Mario, Luigi, Peach e até Yoshi.

Como esperado, a repercussão foi tão grande quanto um fantasma Big Boo: muitos fãs ficaram impressionados, marcaram amigos para ver as urnas funerárias e, claro, fizeram piadas. Basta olhar nas redes do Voxel para conferir: a maioria dos comentários teme que a empresa seja processada pela Nintendo, que é conhecida por ter advogados que trabalham bastante. 

Afinal, além de a Nintendo ser bastante protetora com suas franquias, Mario e seus amigos nunca tiveram tão em alta. Enquanto o Nintendo Switch 2 está fazendo sucesso em vendas, o filme Super Mario Galaxy é uma das maiores bilheterias do ano até agora. 

No entanto, por trás do viral, existe uma estratégia bem mais calculada — e pronta para lidar com a ameaça de um eventual processo. Após a repercussão da história, o Voxel entrou em contato com a Urnas Bignotto, que contou mais detalhes sobre a criação dos caixões do Mario e seu objetivo com o lançamento. 

Ideia nasceu como conceito — e não como produto

Enquanto a hora da morte costuma ser cercada de caixões com tons amadeirados e pouca variação, a ideia dos criadores dos caixões do Mario foi “testar as águas” para algo mais inovador e conceitual.  Segundo Guilherme Chanquini, responsável pelo marketing da Urnas Bignotto, a iniciativa surgiu internamente como uma proposta criativa. 

Com os caixões do Mario, a intenção era explorar novas formas de comunicação em um setor tradicionalmente distante do grande público. Afinal, não é todo dia que você pensa em comprar uma urna funerária.

“A ideia surgiu a partir de um dos diretores da empresa. Gostamos da proposta e passamos a replicá-la como um conceito criativo”, explicou Chanquini. Apesar da ideia ser nova por aqui, esse tipo de conceito já existe no exterior, com casos que incluem até um caixão temático de M&M’S.

 “As empresas tendem a não firmar parcerias ou ceder licenciamento para o setor funerário.”

No entanto, o responsável pela criação deixou bem claro: não existe qualquer vínculo oficial com marcas ou licenciamento, como uma parceria com a Nintendo. “Infelizmente, não temos licença. As empresas tendem a não firmar parcerias ou ceder licenciamento para o setor funerário.”

Por causa da falta de licenciamento oficial, atualmente a empresa não vende os caixões temáticos do Mario, bem como outros modelos. Com isso, as urnas funerárias servem apenas com uma experimentação e “showoff” do potencial desse mercado no Brasil.

Antes de viralizar com o Mario, a equipe da Urnas Bignotto já tinha colocado o pé na cultura pop fora dos games. O modelo inaugural dos caixões geek foi inspirado na Barbie, escolhida justamente pelo forte apelo visual e reconhecimento popular. Depois, eles ainda fizeram um casal de caixões de “Os Padrinhos Mágicos.

De acordo com o marketing da companhia, a estratégia é simples: gerar impacto imediato e provocar reações do público com o contraste. Em um setor onde a comunicação costuma ser discreta, apostar em cores vibrantes e personagens conhecidos foi uma forma de quebrar o padrão e chamar a atenção.

Produção manual e capacidade industrial

Mesmo sendo conceituais, os caixões exigem um processo produtivo real e bem trabalhado. A empresa afirma ter capacidade para produzir até 1.200 urnas por dia, embora os modelos temáticos tenham uma diferença importante em relação aos tradicionais.

A pintura, por exemplo, não é automatizada. Todo o acabamento é feito manualmente, com pistola, por um colaborador — o que ajuda a explicar o nível de detalhamento visto nas peças.

Esse cuidado visual é, inclusive, um dos fatores que contribuem para o sucesso nas redes sociais. Afinal, não é todo dia que alguém vê o Mario estampado em um contexto tão… Fora da caixa.

Caixões não estão disponíveis para compra

Apesar do sucesso online, a companhia afirma que não colocou os produtos à venda e, até agora, não viu procura por esse tipo de produto no mercado brasileiro. Como a empresa é uma fornecedora, o público da Urnas Bignotto é formado por funerárias, e não por consumidores finais — o que torna esse tipo de criação ainda mais distante de uma aplicação prática.

“Não houve demanda por parte dos nossos clientes”, afirmou Chanquini. Ele destaca que o objetivo principal é atrair atenção e abrir um canal de diálogo com o público geral, algo incomum no setor.

Um dos pontos mais delicados da iniciativa envolve direitos autorais, o que também impediu a empresa de vender os produtos. Personagens como Mario pertencem à Nintendo, que tradicionalmente protege suas propriedades intelectuais com bastante rigor.

A empresa admite que não possui qualquer tipo de licença para utilizar essas marcas. Por isso, reforça que os modelos não são vendidos, não têm preço e não fazem parte do catálogo oficial. “Há preocupação em evitar conflitos legais”, explica o executivo. “As urnas são tratadas apenas como estudos conceituais e criativos, sem associação com marcas ou instituições”.

Ainda assim, o responsável pelo marketing demonstrou interesse em levar os produtos fúnebres para o público, tanto nos games quanto em outros campos. “Existe interesse em explorar diferentes ideias, principalmente aquelas com forte identificação popular, como personagens e até times de futebol”, disse Chanquini.

No entanto, para que o caixão do Mario e de outros personagens chegue ao mercado, é necessário que as empresas que são donas dos direitos autorais abraçem essa ideia. “As marcas não costumam ser abertas a esse tipo de associação com o setor funerário, então, por enquanto, tudo é tratado como uma proposta criativa e conceitual, sem vínculo com marcas ou instituições”, conclui o representante da marca.

Nintendo fica “impressionada com a paixão” dos brasileiros

A repercussão dos caixões temáticos do Mario foi tão grande que também chegou até representantes da própria Nintendo. Durante a Gamescom Latam, o Voxel teve a chance de conversar com Pilar Pueblita, representante da empresa d e jogos, que ficou chocada com a existência de urnas funerárias do Mario.

Quando perguntamos sobre o assunto, a funcionária da Nintendo ficou chocada: “Espera um minuto, urnas funerárias?!”, questionou Pilar, durante a pergunta. Após o choque inicial, a representante da Big N riu e ficou impressionada com a criatividade dos brasileiros.

Ela ressaltou que a Nintendo conta com um time responsável por lidar com propriedade intelectual e não detalhou processos legais. No entanto, como representante da marca na América Latina, ela sempre se surpreende com a comunidade brasileira. 

“Em relação ao que está acontecendo, essa é mais uma questão para a minha equipe de propriedade intelectual dentro da Nintendo”, explicou a representante da Nintendo. “Eles avaliam caso a caso e, quando sentem necessidade ou quando algo está violando alguma das diretrizes, tomam medidas, e você provavelmente já sabe disso.”

“Eu não tenho informações sobre os critérios [utilizados pelo time de direitos autorais], mas estou bastante impressionada e admirada com as pessoas que estão demonstrando sua paixão e amor pela Nintendo”, afirmou. “A qualidade parece ótima”, ressaltou Pilar, enquanto via as fotos dos caixões do Mario.

Como a Urnas Bignotto não está comercializando os caixões do Mario, a expectativa é que a Nintendo não coloque seus advogados para atuar contra as urnas funerárias temáticas. No entanto, a situação levanta uma questão sobre o amor dos fãs brasileiros: afinal, se a empresa der o aval, os nintendistas comprariam um caixão do Mario para levar esse apreço até para baixo da terra?