
15 maio Hélio-3 e asteroides: a mineração espacial pode mudar o futuro da energia
Se você está lendo esta matéria agora, isso é culpa do minério. Seja num smartphone, computador ou até por uma IA que você usou, diversas peças deste aparelho vieram da terra – e talvez, futuramente, de uma base na Lua. Esse foi o tema central da palestra “Do chip à exploração espacial – a base mineral da inovação”, realizada durante o São Paulo Innovation Week (SPIW), com Rafael Bittar, vice-presidente executivo técnico da Vale, e Yuri Ramos, diretor do MIT Industrial Liaison Program.
A Vale é a única empresa de mineração presente no SPIW, e não é à toa. “A base da inovação está nos minerais”, afirma Bittar ao começar a palestra. “Sem aço, cobre, ferro ou lítio não teríamos nada disso aqui hoje em dia.”
Um futuro em escassez
Para se ter uma ideia da demanda que está por vir, Bittar faz um alerta: nos próximos 25 anos, o mundo vai precisar da mesma quantidade de cobre que consumiu entre 1900 e 2025 – uma era industrial condensada em uma geração.
E não é só o cobre. A transição energética (tema cada vez mais falado nas grandes empresas e governos) depende diretamente de mineração. Baterias de veículos elétricos, turbinas eólicas, painéis solares: nada disso existe sem extração mineral. “Não dá para falar em transição energética sem falar em mineração”, resumiu o executivo.
Yuri Ramos, pelo lado do MIT, reforçou a fala de Rafael: “Ou a gente descarboniza ou nós estamos ferrados.” Segundo ele, os três grandes temas em discussão na universidade hoje são inteligência artificial, life science e descarbonização.
Sem mineração não existe IA
A relação entre mineração e inteligência artificial é mais direta do que parece. Construir um datacenter não é só questão de energia elétrica, pois exige uma cadeia enorme de minerais essenciais. E entre a descoberta de um novo depósito e o início da operação de uma mina, passam-se em média oito ano, segundo Bittar.
A Vale inclusive, já usa IA para acelerar esse processo internamente: a empresa utiliza modelos de linguagem para ler documentos antigos sobre possíveis jazidas brasileiras, ajudando a identificar depósitos que poderiam ter passado despercebidos. Bittar também aproveitou para lembrar que o Brasil tem uma vantagem competitiva invejável: “Aqui nós temos a tabela periódica toda, e em quantidade.” Yuri complementou: “Os gringos ficam loucos com as matrizes energéticas que nós temos.”
E a mineração espacial?
O tema mais futurista da palestra foi sobre a mineração fora da Terra. Satélites precisam de cobalto, manganês e alumínio, abundantes no espaço, além da Lua ter reservas de hélio-3, elemento que pode viabilizar fusão nuclear limpa. Marte e alguns asteroides também concentram minerais estratégicos mapeados pela NASA há mais de dez anos.
Em entrevista exclusiva ao TecMundo, Bittar foi direto sobre o assunto: a Vale já recebeu convites para integrar consórcios com empresas aeroespaciais, mas optou por não entrar. “A gente tá preferindo focar no que a gente tem hoje e acompanhar o que vem sendo feito no mundo”, explicou.
O executivo reconhece que a corrida espacial – com bases lunares sendo planejadas pelos Estados Unidos e pela China – é um tema que exige atenção. Mas, na sua visão, a mineração convencional ainda vai dominar o cenário por muitas décadas. A mineração espacial pode vir a complementar, especialmente com elementos de alto valor agregado e volumes menores – o hélio-3 sendo o exemplo mais concreto.
“Não há nada de concreto hoje que suscite que daqui alguns anos se começará a fazer uma extração que vai competir com a mineração tradicional”, afirmou. “Mas é um tema que a gente tem que estar acompanhando.”
O TecMundo está no São Paulo Innovation Week! O SPIW 2026 começa nesta quarta-feira, 13, na capital paulista, reunindo líderes de grandes companhias brasileiras e globais, empresas e startups. Centros de pesquisa, investidores e governos também estarão presentes, participando de debates em tecnologia, ciência, educação, saúde, finanças e muitas outras áreas. Para todos os detalhes acesse o site oficial do evento.