
22 maio Estádios na Espanha contam com IA, data centers e até teto que reutiliza neve
*Apesar da proximidade da Copa do Mundo de 2026, a Espanha já está de olho na Copa do Mundo de 2030. A próxima edição do principal torneio de futebol do planeta terá o país do mediterrâneo como uma das sedes e, por isso, entidades e clubes já estão com preparativos avançados.
E no caso dos estádios, a principal aposta dos dirigentes é a tecnologia. Assim como a própria LA LIGA, a ideia geral é que soluções de última geração é que trarão conforto e oferecerão a melhor experiência ao torcedor do mundo todo.
Leia também: LA LIGA: como a Espanha tem democratizado o futebol a partir da tecnologiaA LA LIGA e os clubes espanhóis têm na tecnologia como um dos pilares dos investimentos. (Imagem: Carlos Palmeira/TecMundo)
Para conhecer de perto esses projetos super tecnológicos ligados a estádios modernos, o TecMundo conheceu o projeto do Nou Mestalla – futuro novo estádio do Valência Club de Fútbol – e visitou o Riyad Air Metropolitano, campo do Atlético de Madrid.
Confira, abaixo, um pouco das soluções tecnológicas que nós vimos nas arenas e como os gigantes miram presente e futuro do futebol na Espanha.
Um novo estádio para a comunidade
Em junho de 2027 está previsto para ser inaugurado o Nou Mestalla, novo estádio do Valência. O clube da cidade homônima atua desde 1923 no mesmo estádio e, já há algum tempo, percebeu que a antiga casa já não recebia seus torcedores da forma mais moderna possível.
O Nou Mestalla terá espaço para pouco mais de 70 mil assentos, sendo 6,5 mil assentos chamados de “hospitality”. O conceito se refere aos lugares mais VIP, incluindo espaços privativos e até com acesso a um restaurante com estrelas Michelin.
Franco Segarra, diretor de Inovação do Valência, pontua que o novo estádio ficará “vivo” por 365 dias do ano. Ou seja, a expectativa é que o espaço tenha programação além de partidas, abrigando atividades de cultura e gastronomia, shows, apresentações, feiras, eventos e mais. Ele salienta, porém, que a prioridade será o futebol.
El Nou Mestalla instala los andamios auxiliares para el montaje de los cables previo al izado de la estructura de la gran cubierta 🏟️
El proyecto está avanzando en el desarrollo de la fachada y en las torres de escalera.#ADNVCF
— Valencia CF (@valenciacf) May 7, 2026
“Nós não pensamos em ter shows durante todas as semanas. Nosso planejamento é para ter shows fora da temporada regular. O gramado é superimportante, então as apresentações serão em junho ou julho. Mas [o novo estádio] será um espaço para grandes shows e grandes artistas da indústria”, comenta.
Além dos espaços mais “chiques”, o torcedor comum também terá bastante acesso, de acordo com Segarra. Inclusive, o diretor garante que não haverá ponto cego em nenhuma arquibancada e que o projeto será abraçado e abraçará a cidade de Valência, que recebeu em 2023 mais de 10 milhões de turistas.
Um estádio futurista
O custo do Nou Mestalla está previsto em 322 milhões de euros (cerca de R$ 1,8 bilhão na cotação atual). O Valência divulga o novo espaço como um “ponto de parada obrigatório no Mediterrâneo”. Para alcançar esse status, a aposta será em muita tecnologia.
No quesito tecnológico haverá uma revolução. Enquanto o atual Mestalla tem dificuldade para fornecer conexões de internet instáveis para os torcedores, o Nou Mestalla terá até fibra ótica. Além de rede LAN, o Nou Mestalla terá uma rede Wi-Fi que promete conexão rápida e estável para “dezenas de milhares de usuários simultaneamente”.
Ademais da tradicional maquete, o projeto conta ainda com um digital twin (gêmeo digital). A solução tecnológica reconstrói integralmente em versão de computador praticamente qualquer local, sendo uma fábrica, um bairro, uma cidade ou estádio de futebol. Algumas iniciativas mais ousadas tentam, inclusive, construir um digital twin do planeta terra inteiro.
O Nou Mestalla chegou a ser chamado de estádio fantasma, já que as obras ficaram muito tempo paradas por falta de dinheiro. (Imagem: Carlos Palmeira/TecMundo)Entenda: O que são Gêmeos Digitais?
Como a versão digital tem detalhes e pode contar até com a física estrutural do local, no caso do Nou Mestalla o projeto está sendo utilizado para vender assentos do setor de hospitality, por exemplo.
Outro grande atrativo tecnológico será a cobertura translúcida, que filtrará a luz e protegerá do sol e da chuva todos os assentos. A iluminação será feita com LEDs de alta eficiência e o espaço está sendo desenvolvido para privilegiar o efeito acústico.
No quesito sustentabilidade, a arena terá estrutura fotovoltaica para captação de energia solar, além de aquecimento de água com energia aerotérmica.
Estádio Riyad Air Metropolitano
Enquanto os torcedores do Valência contam os dias para a inauguração da nova casa, os fãs do Atlético de Madrid já usufruem de um dos estádios mais modernos do mundo. Considerado o primeiro estádio 100% digital da Europa, o Riyadh Air Metropolitano, localizado na capital espanhola, está confirmado como um dos estádios da Copa do Mundo de 2030 e oferece uma experiência única para qualquer um que entra na arena.
Os atletas do Atleti sentem a energia não só das arquibancadas, mas também dos dois painéis laterais que estão no final do túnel que dá acesso ao gramado. Durante dias de jogos, as duas telas interativas exibem mensagens de apoio, por exemplo. Já quando são torcedores entrando no local, nas visitas guiadas ou tours, os painéis exibem o nome da pessoa, há quanto tempo ela é sócio-torcedora do clube, quantos gols ela já viu no estádio e mais informações. Tudo isso é feito através do app próprio do clube.
René Martin, diretor de Tecnologia do Atlético de Madrid, conta que várias das soluções do estádio foram desenvolvidas especificamente para o clube. No caso dos telões que estão no alto, foi desenvolvida uma função matemática para atuar no brilho de cada pixel individualmente. O painel de LED cobre o estádio em 360 graus e tem 1.742 metros quadrados.
Ao entrar no gramado, o torcedor associado pode ser recebido com um mensagem especial em uma tela de LED. (Imagem: Carlos Palmeira/TecMundo)
“Tivemos que pensar nisso tudo porque em soluções comuns a visibilidade dos torcedores não seria a ideal. Então cuidamos para que houvesse mais brilho nos pixels na parte inferior e menos brilho na parte superior. De longe, parece uma tela com visão plana, mas na verdade são pixels com brilho controlado”, afirma Martin.
O estádio colchonero tem conectividade 5G e Wi-Fi (estão sendo instalados pontos de Wi-Fi 7) e conta com dois servidores que se conectam por mais de 1 mil km de fibra ótica. São dois espaços de tecnologia que servem como redundância, caso um falhe, o outro estará disponível.
Laboratório de inovação
O diretor de Tecnologia do Atlético de Madrid explica ainda que o Riyadh Air Metropolitano não foi 100% baseado em algum outro estádio, apesar de as arenas norte-americanas terem sido observadas como inspiração. Ele defende que o estádio madrilenho utiliza as melhores tecnologias disponíveis no mundo atualmente e que para se manter atualizado, o clube possui um laboratório de inovação. O laboratório analisa soluções tecnológicas utilizadas em estádios ao redor do mundo e que podem servir para os espanhóis.
Perguntado sobre as últimas novidades na arena, Martin cita a parte de conectividade. “Nesse ano renovamos a infraestrutura de operadoras móveis porque queremos que os torcedores possam compartilhar [nas redes sociais] os momentos vividos no estádio. Agora temos um contrato com a [operadora] Movistar que oferece boa conexão de internet em todos os locais”, defende.
E o Riyadh Air Metropolitano tem outros dois pilares de trabalho que envolvem a tecnologia: acessibilidade e sustentabilidade. No caso de acessibilidade, o estádio tem um tablet tátil que mostra em tempo real o que está acontecendo no campo.
“O Movistar Touch é essa tecnologia que mostra através do tablet e de fones de ouvido quando há falta, se houve um gol, se houve um chute para fora etc. Temos um provedor em nuvem que fornece essa experiência que faz com que nossos torcedores com deficiência possam sentir a partida”.
Outro orgulho dos colchoneros é o fato de que o Riyadh Air Metropolitano é um dos estádios mais sustentáveis não só da Espanha, mas do mundo. O clube utiliza a tecnologia Green AP, que com inteligência artificial consegue colocar os pontos de internet em uma espécie de economia de energia quando a conexão não está sendo utilizada. Só que a solução mais impressionante neste sentido talvez esteja no teto do estádio, que tem 35 metros de altura.
Durante alguns invernos já houve neve em Madrid e, como o estádio tem uma espécie de colchão no teto, essa neve pode ser armazenada caso ela caia. Assim como a água da chuva, a neve derretida ativa circuitos para que o líquido desça e possa ser reutilizado para molhar o gramado, por exemplo.
O Riyadh Air Metropolitano tem capacidade para pouco mais de 70 mil pessoas. (Imagem: Carlos Palmeira/TecMundo)
No final do tour tecnológico ao estádio do Atlético de Madrid, nós visitamos a sala de controle. Ela fica em um dos anéis superiores e oferece um das melhores visões da arena.
“Em uma das bancadas nós controlamos áudio, vídeo e luz. Na outra, os engenheiros ficam de olho na saúde dos servidores. São cerca de 20 pessoas que trabalham na sala em dias de jogos. [O trabalho em dia de partida] é estressante, mas é bonito porque todos atuam juntos como se fosse uma orquestra”, finaliza Martin.
*O jornalista viajou para a Espanha a convite da LA LIGA.