Mina the Hollower é novo clássico instantâneo que deixaria Shovel Knight orgulhoso

Pode não parecer, mas Shovel Knight já pode ser considerado um game retrô. Faz praticamente doze anos que a Yatch Club Games lançou o seu título de estreia, causando uma grande comoção entre os entusiastas de jogos independentes e ajudando a pavimentar esse mercado. 

No entanto, algo sempre me incomodou: a desenvolvedora nunca mais encontrou a oportunidade, ou até mesmo as condições, para consolidar uma nova franquia. Tudo o que veio depois de Shovel Knight foram outros jogos desse universo — e que tiveram dificuldades em manter a tração do título original. Felizmente, isso muda com a chegada do aguardadíssimo Mina the Hollower. 

Antes previsto para o Dia das Bruxas de 2025, Mina the Hollower sofreu um adiamento repentino por tempo indeterminado e preocupou os fãs — com razão, especialmente após relatos de que o estúdio estaria apostando tudo em seu novo lançamento para continuar sobrevivendo. Agora, a carismática ratinha chega em 29 de maio de 2026 carregando uma enorme responsabilidade.

Após jogar a versão completa, posso dizer que estou muito mais tranquilo. A Yatch Club Games conseguiu entregar uma aventura divertida, instigante e de altíssima qualidade, explorando ao máximo os limites do pixel art em 8-bit com animações fluidas e um game design moderno. Veja os detalhes a seguir, na análise do Voxel:

Uma receita familiar, mas com um tempero único

À primeira vista, é fácil identificar algumas das principais inspirações do time de desenvolvimento em Mina the Hollower. Trata-se de um jogo de ação e aventura com visão do topo em um grande mundo interconectado, lembrando os The Legend of Zelda clássicos. Tudo isso é banhado por uma estética gótica e sombria, como a de um Castlevania, e um loop de gameplay que empresta elementos de Dark Souls. 

Assim como em Shovel Knight, a Yatch Club Games é muito competente em reproduzir as qualidades dos jogos que a inspiraram para criar uma experiência totalmente nova. A protagonista, a ratinha Mina, é uma inventora talentosíssima e também uma escavadora — um grupo capaz de extrair uma fonte de energia chamada Centelha da terra. Por conta disso, a heroína pode escavar debaixo de inimigos e objetos do cenário para se movimentar, resolver quebra-cabeças e encontrar brechas. 

É uma mecânica que tem a mesma importância da pá para o Shovel Knight, pois é a responsável por nortear toda a experiência com o jogo. Sem contar o fato de que Mina dispõe de todo um arsenal de armas estilosas, incluindo: um chicote de corrente; um caixão que serve de escudo e bumerangue; um martelo gigantesco; adagas rápidas e uma arma que dispara projéteis que ricocheteiam.

Em outras palavras, é um jogo com mecânicas muito engenhosas e que recompensam aqueles que dominarem suas nuances. Por exemplo, a habilidade de escavar da Mina permite que ela salte mais longe do que o habitual, abrindo margem para manobras mais ousadas em seções de plataforma. Já o martelo causa mais dano ao manter o botão pressionado e também permite rolamentos para as direções. Por sua vez, o caixão permite bloquear golpes e revidá-los com força se acertar o momento correto. E por aí vai.

Mina the Hollower é um jogo que vai maltratá-lo — e fazê-lo gostar disso

Para começar a falar de Mina the Hollower, é importante dizer que se trata de um jogo bastante desafiador. Mas ele não faz isso de uma maneira largada ou injusta. É uma dificuldade orgânica, que convida o jogador a explorar soluções com o conhecimento que ele tem até aquele momento.  

Seja no combate ou até mesmo na tarefa de se localizar e descobrir o seu próximo objetivo, o jogo está recheado de momentos de fricção. Na minha experiência, a maior dificuldade foi tentar encontrar o meu caminho e morrer repetidas vezes no processo. Isso me incentivava a fazer sessões mais curtas de gameplay, mas logo eu sentia aquela coceirinha para abrir o jogo novamente, com a mente descansada, para tentar algo diferente — e sempre valia a pena.

O jogo tem seis áreas principais nas quais a protagonista precisa ligar grandes geradores de energia para alimentar a região, rendendo algo em torno de 20 horas de jogatina. Cada uma delas está recheada de surpresas, momentos marcantes e desafios únicos. Um dos momentos mais legais foi em Setemburgo, em que o chefe da área é um perseguidor implacável e que subverte expectativas, pois lugares que antes eram seguros passam a não ser mais.

Por conta disso, a impressão é de que Mina the Hollower está sempre tentando “pirraçar” com você. E o jogo faz isso de uma forma tão natural e inteligente que a frustração logo dá lugar para a curiosidade pelo que pode vir a seguir. E mais uma vez: não é como se não houvesse meios para lidar com as dificuldades do jogo. 

Há inúmeros apetrechos desbloqueáveis que mudam significativamente as técnicas da protagonista. Nas primeiras horas, eu estava muito incomodado com o fato de que Mina não podia sair da animação de escavar e entrar imediatamente no chão em seguida, sem antes executar um novo salto. Há um apetrecho que resolve isso, além de outro que permite até mesmo escavar as paredes para destravar novas possibilidades de movimentação.

É muito comum dizer que jogos desafiadores, que tenham muita fricção, não são “para todo mundo”. Eu não gosto dessa expressão, pois um jogo para todo mundo é algo impossível de alcançar, a menos que a ideia seja criar algo totalmente genérico. O meu sentimento é que Mina the Hollower não tem medo de incomodar, e isso faz dele um videogame muito competente.

Isso não apaga algumas decisões de design que poderiam ser melhores. Eu acho que faz muita falta a possibilidade fazer ataques diagonais. Também não me agrada a decisão de não disponibilizar um mapa mais detalhado, como o de um metroidvania tradicional, pois isso não me incentiva a voltar em cenários que me deram muito trabalho de explorar. Mas quase todas as soluções para os incômodos do jogo estão dentro dele próprio, e isso é ótimo.

Vale acrescentar que o jogo traz um menu de trapaças com inúmeros modificadores para a experiência — uma necessidade que talvez tenha surgido pelo momento de “tudo ou nada” do estúdio. Nas palavras da própria Yatch Club Games: o jogo é seu, então você pode fazer o que quiser com ele. As trapaças incluem facilitadores, como invencibilidade, mais checkpoints e ajuste de velocidade, além de elementos que visam dificultar a experiência. Então, vale checar caso você esteja sentindo necessidade de alguma mudança na experiência.

A narrativa deixa um pouco a desejar, mas todo o resto carrega a experiência

A história de Mina the Hollower tem um pano de fundo funcional, mas deixa um pouco a desejar no andamento da sua narrativa. É muito difícil tomar nota de quem são os personagens do jogo, pois a maior parte é esquecível. Também há vários diálogos em que a Mina claramente conhece o NPC, mas o jogador não tem nenhum contexto da relação entre eles e acaba ficando confuso.

Em compensação, a atmosfera do universo do jogo consegue carregar a experiência e manter o jogador curioso. Também há várias surpresas ao visitar as áreas, como aparições inusitadas e momentos extremamente bizarros que chegam a arrancar risos desconfortáveis. Num bom sentido. É um mundo que, ao mesmo tempo que consegue ser fofo, pode ser aterrorizante. 

A jornada de Mina, que precisa religar geradores de energia imensos que ajudou a construir para alimentar a ilha, também é carregada pelo sentimento de dúvida sobre ser a coisa certa a fazer. Logo no início, é muito claro qual que vai ser o rumo da história. Por isso, eu não creio que a narrativa seja o ponto central aqui. É bastante clichê, mas cumpre o seu papel para que o gameplay e estranheza do seu mundo possam brilhar.

Vale a pena?

Mina the Hollower nasce como um novo clássico instantâneo da Yatch Club Games, entregando uma aventura charmosa em um mundo punitivo, mas extremamente satisfatório de explorar. É um jogo recheado de carisma e qualidade, e que com sorte deve pavimentar um novo futuro para a desenvolvedora de Shovel Knight em um momento bastante delicado no mercado de games.

É um jogo que não subestima a inteligência do jogador, mas ainda assim traz soluções convidativas para aqueles que desejarem personalizar a experiência a seu modo. A recomendação é que você desfrute de cada cantinho no seu ritmo, pois as surpresas e desafios são muito recompensadores. Se você gosta da estética retrô ou das qualidades que tornam jogos como The Legend of Zelda, Castlevania e Dark Souls tão bons, talvez você encontre um novo favorito.

Nota do Voxel: 90

Pontos positivos:

Gráficos 8-bits muito bem-animadosExploração recompensadoraJogabilidade satisfatória e muito personalizávelAtmosfera irretocável que mistura visuais fofos e terrorMuitas surpresas e quebras de expectativa

Pontos negativos:

Faz falta um mapa mais detalhado para ajudar a explorarAlgumas caixas de colisão parecem desengonçadasNarrativa deixa um pouco a desejar

Uma chave antecipada de Mina the Hollower foi fornecida pela assessoria da Yatch Club Games ao Voxel para a produção desta análise. O jogo chega oficialmente em 29 de maio para PC, Nintendo Switch, Nintendo Switch 2, PS5 e Xbox Series.