O novo negócio bilionário que cresce junto com os carros elétricos no Brasil

Durante muito tempo, o debate sobre carros elétricos no Brasil girou em torno de uma única pergunta: “Onde vou carregar?”. Agora, pela primeira vez, o mercado começa a mudar essa lógica. A discussão já não é mais se a infraestrutura vai existir, mas quem vai ganhar dinheiro construindo essa infraestrutura.

O avanço da eletrificação no país está criando um novo ecossistema de negócios que mistura energia, mobilidade, varejo, tecnologia e investimentos. E talvez o ponto mais interessante seja justamente esse: a corrida dos carros elétricos não está movimentando apenas montadoras. Está criando uma nova geração de empresários.

O crescimento do setor impressiona pela velocidade. Há menos de três anos, carregadores rápidos representavam cerca de 10% da infraestrutura pública disponível no Brasil. Hoje, já passam de 20%, com mais de 6 mil pontos rápidos espalhados pelo país. Ao mesmo tempo, veículos como o BYD Dolphin Mini aceleraram a adoção do elétrico em um ritmo que poucos imaginavam.

Mas o que realmente chama atenção não é apenas o aumento da frota. É a transformação do carregador em ativo financeiro.

Essa é uma das principais teses defendidas por Alexandre Faustino, CEO da AR70, empresa que opera a marca de carregadores Teison no Brasil, Argentina, Paraguai e Colômbia. Segundo ele, o mercado deixou de enxergar o carregador apenas como equipamento industrial e passou a tratá-lo como um gerador de receita recorrente.

A lógica é simples: enquanto um carro elétrico recarrega, o motorista consome no estabelecimento. E isso muda completamente a dinâmica de negócios de restaurantes, supermercados, postos, shoppings e redes varejistas.
Projetos que começaram como piloto já viraram operação real. Redes como Madero e Supermercados Dia passaram a integrar hubs de recarga rápida em suas unidades, criando uma combinação interessante entre conveniência, permanência do cliente e monetização do espaço físico.

Na prática, o carregador passa a funcionar quase como uma “âncora digital” do varejo físico. O motorista para por 20, 30 ou 40 minutos e, nesse período, consome alimentação, usa serviços e aumenta o fluxo do estabelecimento.
Ao mesmo tempo, o mercado vive uma segunda transformação menos visível, mas talvez ainda mais relevante: a infraestrutura energética.

Em países com limitações severas de rede elétrica, como a Argentina, empresas começaram a desenvolver sistemas híbridos com baterias de armazenamento energético. A lógica é estratégica: mesmo em locais onde a concessionária não consegue entregar potência suficiente, o sistema armazena energia lentamente e descarrega rapidamente para os veículos.

Na prática, isso permite instalar hubs ultrarrápidos em regiões onde antes isso seria inviável.

É exatamente esse tipo de tecnologia que começa a desenhar a próxima etapa da eletrificação na América Latina.
O interessante é perceber que o mercado brasileiro parece estar repetindo um padrão comum em grandes transformações tecnológicas: primeiro vem a resistência, depois a curiosidade e, por fim, a aceleração quase inevitável.

O consumidor brasileiro ainda passa por um forte processo de educação. Muitos proprietários sequer conhecem aplicativos de localização de carregadores ou entendem a diferença entre recarga lenta e rápida. Mas essa curva de aprendizado diminui rapidamente à medida que a infraestrutura cresce e o contato com veículos elétricos se torna mais comum.

Motoristas de aplicativo, por exemplo, já se tornaram importantes agentes dessa mudança cultural. Não apenas pela economia operacional, mas pela experiência prática compartilhada diariamente com passageiros.
E a conta financeira ajuda a acelerar ainda mais essa mudança.

Enquanto um SUV potente a combustão pode custar mais de R$ 1,30 por quilômetro rodado, um elétrico equivalente pode operar entre R$ 0,20 e R$ 0,40 por quilômetro, dependendo do tipo de recarga. Sem falar na redução significativa de manutenção.

O resultado é que a eletrificação começa a deixar de ser discurso ambiental para se tornar, principalmente, uma decisão econômica.

Para investidores, o movimento abre espaço para um novo mercado de infraestrutura privada. Pequenos investidores já começam a entrar no setor por meio de cotas em operações de recarga, enquanto operadores independentes expandem redes próprias em parceria com varejistas e centros comerciais.

No fundo, a grande transformação talvez não esteja apenas nos carros. Está no fato de que a mobilidade elétrica começa a redefinir como energia, consumo e varejo se conectam dentro das cidades.

E, como toda grande transformação estrutural, os maiores vencedores tendem a ser aqueles que entenderem cedo que o negócio nunca foi apenas vender carros.