CEO da Box critica ‘psicose da IA’ após onda de demissões em empresas de tecnologia

O CEO da Box, Aaron Levie, afirmou que executivos de empresas de tecnologia estão sofrendo de uma “psicose da IA” ao apostar em demissões em massa baseadas em expectativas exageradas sobre inteligência artificial (IA). A declaração foi publicada no X (ex-Twitter) em meio a uma nova onda de cortes no Vale do Silício, impulsionada pelo avanço das ferramentas de IA generativa.

https://x.com/levie/status/2058582370253701432

Segundo Levie, muitos líderes empresariais estão distantes do trabalho operacional e enxergam apenas os melhores resultados produzidos pela tecnologia. “Os CEOs são particularmente propensos à psicose da IA porque estão suficientemente distantes da última etapa do trabalho que ainda precisa ser feita para gerar o máximo valor com a IA”, escreveu o executivo. Para ele, parte do setor ignora problemas como erros, alucinações e limitações enfrentadas diariamente por funcionários que utilizam essas ferramentas.

O comentário reflete um debate crescente no setor de tecnologia sobre o impacto real da IA na produtividade das empresas. Uma pesquisa da companhia Rev mostrou que usuários intensivos de IA enfrentam três vezes mais alucinações em respostas geradas pelos sistemas e levam quase dez vezes mais tempo para concluir tarefas ao tentar maximizar o uso dessas plataformas.

Estudos também colocam em dúvida o retorno financeiro prometido pelos investimentos em IA. Um levantamento da consultoria Gartner com 350 executivos de empresas globais com faturamento acima de US$ 1 bilhão apontou que 80% das companhias que implementaram projetos-piloto de IA reduziram funcionários, independente de a tecnologia já apresentar retorno concreto. O movimento reforça críticas de que algumas empresas utilizam a IA como justificativa para cortes motivados por questões de orçamento.

Levie citou situações práticas para ilustrar o problema. Segundo ele, um funcionário pode usar IA para gerar um contrato rapidamente, mas ainda precisa revisar cláusulas, conferir informações e consultar documentos anteriores antes de concluir o trabalho. Para o executivo, existe uma diferença entre a impressão de produtividade criada pela tecnologia e o esforço necessário para transformar o resultado em algo utilizável no ambiente corporativo.

Ao mesmo tempo, os custos ligados à IA começaram a aumentar dentro das empresas. A Microsoft substituiu recentemente o Claude pelo GitHub Copilot CLI em algumas operações. Já o CTO da Uber, Praveen Neppalli Naga, afirmou ao The Information que a empresa consumiu em apenas quatro meses todo o orçamento previsto para 2026 destinado a ferramentas de programação com IA. A Axios também relatou o caso de uma companhia que gastou cerca de US$ 500 milhões após não estabelecer limites de uso para licenças do Claude entre funcionários.

Apesar do entusiasmo do mercado, executivos do setor vêm reduzindo o tom das previsões sobre substituição de trabalhadores por IA. O CEO da OpenAI, Sam Altman, afirmou recentemente que esperava um impacto maior da tecnologia sobre vagas de entrada em escritórios. “Achei que já teria havido um impacto maior na eliminação de empregos de nível básico de escritório do que realmente aconteceu”, disse em entrevista ao CEO do Commonwealth Bank of Australia, Matt Comyn.

Mesmo assim, as demissões continuam no setor. A plataforma de criação de sites Wix anunciou nesta semana o corte de mil funcionários, cerca de 20% de sua força de trabalho, atribuindo parte da decisão aos ganhos de eficiência com IA. A Meta também demitiu recentemente 10% dos empregados após o CEO Mark Zuckerberg afirmar que a IA é “a tecnologia mais importante de nossas vidas”. 

Dados da consultoria Challenger, Gray & Christmas mostram que 49.135 demissões já foram associadas à IA neste ano, número próximo ao total registrado em todo o ano passado.