
01 jun Como nasceu Backrooms? Conheça a lenda urbana que deu origem para o filme de sucesso da A24
O filme Backrooms finalmente chegou aos cinemas e já começou fazendo história. Lançado pela A24, o longa dirigido pelo jovem Kane Parsons arrecadou impressionantes US$ 118 milhões em bilheteria global no primeiro fim de semana, tornando-se a maior estreia da história do estúdio e o maior lançamento de terror de 2026 até agora.
O sucesso também transformou Parsons em um nome histórico de Hollywood. Aos 20 anos, o cineasta se tornou o diretor mais jovem a comandar um filme que alcançou o primeiro lugar das bilheterias, um feito ainda mais curioso quando se descobre que tudo começou com uma simples imagem publicada na internet.
Mas afinal, o que são os Backrooms e por que essa ideia aparentemente simples conseguiu assustar milhões de pessoas ao redor do mundo? A resposta passa por fóruns obscuros, teorias colaborativas, nostalgia desconfortável e um dos maiores fenômenos de horror digital da última década.
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A origem dos Backrooms em um fórum da internet
A história dos Backrooms nasceu em maio de 2019 no 4chan, um dos fóruns mais conhecidos e polêmicos da internet. Em uma discussão dedicada a imagens que pareciam “erradas” ou causavam desconforto inexplicável, um usuário compartilhou a foto de um ambiente vazio coberto por carpetes amarelados e iluminado por lâmpadas fluorescentes.
A imagem que deu origem aos Backrooms.
Pouco depois, outro participante respondeu com um texto curto que acabaria se tornando uma das lendas urbanas virtuais (creepypastas) mais famosas da internet. A publicação descrevia um lugar infinito composto por salas vazias, carpetes úmidos, paredes amarelas e um zumbido constante vindo da iluminação, onde qualquer pessoa poderia acabar caso “saísse da realidade” por acidente.
“Se você não tomar cuidado e fizer um noclip fora da realidade nas áreas erradas, você vai acabar nos The Backrooms, onde não há nada além do fedor de carpete velho e úmido, a loucura do amarelo monocromático, o ruído de fundo infinito de luzes fluorescentes no zumbido máximo e aproximadamente seiscentos milhões de milhas quadradas de salas vazias segmentadas aleatoriamente para ficar preso. Deus te salve se você ouvir algo vagando por perto, porque com certeza ele te ouviu”, diz o texto original, de um usuário anônimo do 4chan.
Apesar de simples, a ideia foi tão eficaz que acabou criando, com o tempo, um subgênero de terror na internet. O conceito misturava o medo do desconhecido com a sensação de estar preso em um lugar estranhamente familiar, criando uma experiência psicológica muito diferente dos monstros tradicionais do terror.
A foto real que inspirou o pesadelo
Durante anos, ninguém sabia exatamente de onde vinha a famosa imagem que deu origem aos Backrooms. A fotografia parecia ter surgido do nada, o que aumentava ainda mais o mistério em torno da lenda urbana.
A resposta só apareceu em 2024, quando membros de uma comunidade dedicada aos Backrooms conseguiram rastrear a origem da foto. Eles descobriram que a imagem havia sido registrada em 2002 durante a reforma do segundo andar de uma antiga loja de móveis em Oshkosh, no estado de Wisconsin, nos Estados Unidos.
Foto original foi compartilhada com outra imagem do local que inspirou a lenda urbana. Imagem: Web Archive.
O local estava sendo preparado para receber uma unidade da rede HobbyTown. O ambiente possuía divisórias temporárias, iluminação fluorescente, carpetes desgastados e nenhum contato com o exterior, exatamente os elementos que ajudaram a criar a atmosfera inquietante que transformaria aquela simples fotografia em um ícone da cultura digital.
O fenômeno das “espaços liminares”
Parte do sucesso dos Backrooms está ligada ao conceito de “liminal spaces”, ou espaços liminares. O termo é usado para descrever locais de transição que normalmente seriam movimentados, mas aparecem completamente vazios, provocando uma estranha sensação de nostalgia e desconforto.
O escritório da série Ruptura é um exemplo de espaço liminar. (Imagem: Apple TV)
Corredores de escolas abandonadas, shoppings desertos e escritórios sem pessoas são exemplos clássicos dessa estética, que aparece em séries como Round 6 e a premiada Ruptura. Os Backrooms se tornaram o maior símbolo desse movimento na internet, ajudando a popularizar imagens que parecem familiares, mas ao mesmo tempo profundamente erradas.
O fascínio acontece justamente porque o cérebro reconhece o ambiente, mas percebe que algo está fora do lugar. É um medo menos baseado em sustos e mais na sensação de que a realidade deixou de funcionar como deveria.
A psicóloga Miriam Hoffman abordou um conceito semelhante em um artigo publicado em 2018, antes mesmo do nascimento da creepypasta. Segundo a pesquisadora, o cérebro constrói “mapas cognitivos” dos espaços que frequenta, associando ambientes a memórias, emoções e sensações de familiaridade.
A série American Horror Story também utilizou conceitos apresentados em Backrooms em um de seus episódios. Imagem: FX.
Quando nos deparamos com locais vazios, silenciosos ou estranhamente desocupados, esses mapas mentais são ativados, mas algo parece faltar, criando uma sensação de estranhamento difícil de explicar. “O cérebro utiliza períodos de descanso desperto como uma oportunidade para explorar internamente rotas nunca experimentadas e relações espaciais importantes para a formação de um mapa cognitivo robusto.”
É justamente nessa lacuna entre o familiar e o desconhecido que os Backrooms encontram sua força: os cenários parecem pertencer a lembranças reais, mas surgem distorcidos, infinitos e sem qualquer referência humana, transformando uma sensação cotidiana de nostalgia em uma experiência genuinamente perturbadora.
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O que significa “noclipar” para os Backrooms?
Um dos elementos mais curiosos e assustadores da lenda das Backrooms é a expressão “noclip”, quando você encontra um “bug na realidade” e cai dentro do ambiente assustador. O termo vem dos videogames e costuma ser usado para descrever quando um personagem atravessa paredes ou objetos por causa de falhas na programação.
Na história original, as pessoas acabam nos Backrooms ao errar um passo e cair para fora da realidade que conhecemos. Em vez de atravessar um cenário digital, elas atravessariam o próprio mundo real e cairiam em uma dimensão paralela composta por corredores intermináveis e salas sem saída.
Essa mistura entre linguagem gamer e horror existencial ajudou a aproximar a história de uma geração acostumada a explorar mundos virtuais. Aliado a isso, o teor minimalista dos cenários ajudou a tornar a história dos Backrooms um celeiro criativo para games, textos e vídeos na internet.
Como os fãs transformaram Backrooms em um universo gigantesco
Poucos dias após a publicação original, comunidades inteiras começaram a expandir a ideia. Usuários do Reddit, TikTok, YouTube e diversas wikis criaram centenas de novos andares com base na imagem oficial. Conhecidos como “níveis”, os “não-lugares” traziam criaturas misteriosas, chamadas de entidades, e muitos mistérios.
O conceito deixou de ser apenas uma única sala amarela para se tornar um universo compartilhado. Surgiram estacionamentos infinitos, túneis industriais, hotéis abandonados, piscinas vazias e inúmeros outros ambientes que mantinham a mesma sensação de isolamento e estranheza.
Ao contrário de franquias tradicionais, os Backrooms nunca tiveram uma versão oficial definitiva, tampouco um dono. Qualquer pessoa podia contribuir com histórias, imagens ou regras, criando uma experiência colaborativa semelhante ao fenômeno da Fundação SCP, outra creepypasta que ganhou vida na internet.
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Como Kane Parsons levou os Backrooms para Hollywood
Em 2022, o jovem criador Kane Parsons, conhecido como Kane Pixels no YouTube, publicou o curta-metragem The Backrooms (Found Footage), o que o colocou no centro das atenções da lenda urbana. Produzido com softwares como Blender e After Effects, o vídeo simulava uma gravação encontrada de alguém perdido dentro da dimensão.
O projeto viralizou rapidamente e acumulou dezenas de milhões de visualizações, criando um universo de curta-metragens virais. Parsons expandiu a ideia em uma série de vídeos que adicionavam novas camadas de narrativa, incluindo experimentos científicos, organizações secretas e explicações para a existência dos Backrooms.
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O sucesso chamou a atenção da A24, que transformou a série em um filme para os cinemas. Com um orçamento de apenas US$ 10 milhões, o longa-metragem já arrecadou US$ 118 milhões apenas em seu fim de semana de estreia, mostrando a força desse universo alimentado na internet.
Com o sucesso nas telonas, a produção deixa claro que até mesmo uma simples foto na internet pode se tornar combustível para grandes obras, desde que o público abrace a ideia.