
12 jun A indústria espacial após o IPO da SpaceX: os concorrentes estão em pânico?
Em março de 2017, a empresa de exploração espacial SpaceX conquistou de vez o mercado com um feito impressionante até hoje. Um foguete Falcon 9 reutilizado — ou seja, que já havia sido lançado e pousou em segurança — obteve sucesso em uma segunda missão para levar um satélite até a órbita da Terra.
Quase uma década depois, o empreendimento de Elon Musk chega a outro momento marcante. É a oferta pública de ações (IPO) sob a sigla SPCX, que deve elevá-la de patamar e ampliar ainda mais o império da atual pessoa mais rica do mundo.
Apesar de atualmente ser muito mais do que uma empresa de lançamento de foguetes ao espaço em contratos públicos e privados, a SpaceX segue apostando alto no setor que a consagrou. E é justamente ele que pode ser mais transformado com a entrada da companhia na Bolsa de Valores.
O que é a SpaceX hoje?
Os documentos submetidos pela SpaceX para o processo de IPO confirmaram alguns números sobre a saúde da empresa em 2025. Ela fechou o ano com US$ 18,6 bilhões em receita (cerca de R$ 96 bilhões na cotação atual), mas registrou um prejuízo de US$ 4,9 bilhões (R$ 25 bilhões). Além disso, ela teve gastos com equipamentos e infraestrutura (capex) de US$ 20,7 bilhões (R$ 106 bilhões), o que indica um momento de expansão sem retorno financeiro imediato.
Porém, a atividade da companhia segue intensa. Só no ano passado, ela realizou 165 lançamentos do Falcon 9, o que representa mais de 50% das missões do setor. A possibilidade de reutilização dos foguetes contribui para essa estratégia, já que reduz os custos da operação e permite um maior número de envios de cargas ao espaço em um determinado período.
A plataforma da empresa no Kennedy Space Center, que fica na Flórida. (Imagem: Divulgação/SpaceX)
“A indústria espacial por muito tempo usou praticamente aquilo que tinha sido desenvolvido na corrida da década de 60 e o incremento do que aconteceu com os ônibus espaciais. A SpaceX tem como grande diferencial a regeneração e o aproveitamento”, explica Arthur Igreja, especialista em Tecnologia e Inovação.
Para além dos feitos técnicos, Igreja destaca também o planejamento: a SpaceX aliou uma estratégia bem definida de operações com a capacidade de tornar midiático o setor de lançamentos espaciais privados, até então algo bastante restrito.
Para o futuro, a marca também avançou nos testes com a nave Starship, o projeto mais ousado da companhia. Nem todos os lançamentos terminaram bem sucedidos, mas ela considera que os experimentos são importantes para a consolidação do veículo final.
A Starship ainda não tem previsão para voos comercias. (Imagem: Divulgação/SpaceX)
O projeto tem uma alta expectativa, em especial pela capacidade planejada de transporte de carga. Nas estimativas da SpaceX, ela conseguiria entregar cerca de 100 toneladas de carga em órbita por missão, quase cinco vezes mais do que o espaço disponível na Falcon 9, além de transportar até 100 pessoas.
Além da exploração espacial, atualmente a SpaceX como empresa concentra também as seguintes divisões:
a empresa de serviço de internet e telefonia móvel via satélite Starlink, atualmente com uma constelação de 10 mil satélites em baixa órbita e com geração de lucro;a rede social X (ex-Twitter), adquirida em outubro de 2022 e desde então com dificuldades na obtenção de receita com anunciantes e assinaturas;a companhia de inteligência artificial (IA) xAI, dona do chatbot Grok e que, apesar de contratos fechados até com o governo dos Estados Unidos, é visto com desconfiança pelo mercado por incidentes recentes;o projeto Terafab, uma fábrica de chips de grandes proporções no Texas para atender o mercado interno e externo de IA.
A companhia mira ainda o posto de referência em um setor que sequer existe fora do papel: satélites de baixa órbita terrestre que atuam como uma constelação de data centers.
Até onde pode chegar o conglomerado de Elon Musk?
Para a IPO, a SpaceX estabeleceu o preço previsto de US$ 135 (R$ 696) por ação, ou o valor recorde de US$ 75 bilhões (R$ 387 bilhões) levantados em um IPO. Na prática e caso os valores sejam seguidos, isso pode tornar a empresa avaliada em US$ 1,75 trilhão (R$ 9 trilhões), patamar ocupado por menos de dez companhias dos EUA atualmente.
Consequências previstas para essa consolidação incluem a expansão de contratos públicos e privados para lançamentos, algo que ela já acumula, além de um caixa que pode ser usado em projetos ainda em desenvolvimento. É o caso da Starship, os satélites Starlink e as metas mais ousadas, dos data centers orbitais ao sonho de ida à Marte — hoje menos falado, mas que foi a meta inicial de Musk.
De acordo com o especialista em tecnologia consultado pelo TecMundo, a IPO ampliará a garantia de recursos por Musk. “Na medida em que ela for capaz de entregar resultados, vai captar ainda mais dinheiro e pode usar isso como mecanismo para ampliar essa distância, que é a lógica por trás da abertura de capital. O pânico já existe pela dominância que ela tem e pode se agravar em virtude da dinâmica de mercado“, argumenta.
Ser um conglomerado de empresas com muitas ligações entre si torna ela ainda mais forte. Ao não depender de outras empresas, a SpaceX pode lançar foguetes que vão levar ao espaço cargas da Starlink ou da xAI, por exemplo, ao mesmo tempo em que usa a estrutura para atender a NASA ou fabricantes de satélites.
Alerta ligado para a concorrência
O IPO também pode colocar a economia espacial ainda mais em evidência como um mercado que atrai investimentos. Porém, o que se viu nos dias posteriores à revelação foi um efeito diferente da atração esperada de capital para o atual mercado.
As ações de Rocket Lab, Intuitive Machines e AST SpaceMobile caíram entre 17% e 23% no início de junho, quando surgiram as primeiras informações da entrada da SpaceX na Nasdaq. Essas e outras companhias agora temem uma desvalorização ainda maior após a concretização do processo.
O analista George Ferguson, da Bloomberg Intelligence, tem uma previsão pessimista que explica esse fenômeno. Segundo ele, o fato de a SpaceX operar de forma privada até agora fez com que muitos investidores interessados no setor colocassem dinheiro em outras companhias já listadas na Bolsa enquanto esperavam a IPO.
Para Ferguson, que lida com pesquisas no setor aeroespacial, uma espécie de migração ou fragmentação nos investimentos de empresas de capital de risco é possível, saindo dessas outras marcas para a SpaceX atraídas pelas propostas e metas mais concretas.
Quem são as rivais da SpaceX hoje
Possíveis prejudicadas pela consolidação da empresa de Musk incluem nomes também midiáticos, como a Blue Origin, fundada por Jeff Bezos. Entretanto, apesar de sucessos recentes, ela teve um grande revés: a explosão do foguete New Glenn em um teste e a destruição da plataforma de lançamentos adaptada. Embora ainda possa participar de contratos com a NASA, está claramente em desvantagem.
Para lançamentos de pequeno e médio porte, a Rocket Lab tem otimismo em contratos futuros governamentais e comerciais, com um foguete reutilizável chamado Neutron ainda em desenvolvimento. Embora promissora, ela está mais distante do potencial que a concorrente.
O foguete Neutron. (Imagem: Divulgação/Rocket Lab)
Outro nome forte seria a Boeing, mas a gigante da aviação atualmente passa por uma reavaliação de projetos sob aspectos financeiros e de desempenho, o que pode resultar em cortes de orçamento.
A recente falha na cápsula Starliner, que deixou dois astronautas presos no espaço por mais de nove meses, até a nave Dragon da própria SpaceX resgatá-los, foi prejudicial para a imagem da companhia. Ela até mantém contratos com a Nasa, sendo uma das responsáveis pelo projeto do foguete da missão Artemis 2, mas com uma relação agora balançada.
Nos contratos de lançamentos militares e governamentais, a também norte-americana Lockheed Martin segue sólida e, por independer só do segmento espacial, deve seguir firme na disputa por contratos.
Em relação a startups da economia espacial, incluindo nomes brasileiros, o cenário mistura indefinição com expectativas de uma oportunidade. Como a comparação em escala fica cada vez mais desigual, uma solução vista para essas companhias é a exploração de nichos tecnológicos e de atuação sem a presença das gigantes de transportes.
Neste caso, há exemplos como a Safe on Orbit, de monitoramento do tráfego espacial, ou companhias que criam satélites de foco específico para uma indústria, como no agronegócio.
Arthur Igreja também acredita no risco de uma concentração pesada nas atenções e investimentos, apesar do cenário de aceleração na indústria como um todo. “Essa indústria estava dormente há algum tempo por questões orçamentárias e prioridades políticas, mas agora está em uma outra fase”, conclui o especialista.
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