
17 jun Prefeitura do Rio é acusada de cópia ao lançar modelo de IA e admite erro
A Prefeitura do Rio de Janeiro se envolveu em uma polêmica no último fim de semana ao anunciar o “Rio 3.5 Open”, modelo de IA de código aberto com desempenho superior às tecnologias de grandes empresas da área. A administração municipal foi acusada de cópia por não detalhar corretamente as origens da ferramenta.
De acordo com a Nex-AGI, laboratório de IA do Instituto de Inovação de Shangai, na China, o projeto liderado pela Empresa Municipal de Informática (IplanRio) não é desenvolvido do zero nem surgiu a partir de treinamento próprio. A tecnologia teria sido baseada no modelo Nex N2 Pro da startup chinesa, que não foi devidamente creditada na iniciativa.
Em contato com o TecMundo, a IplanRio confirmou o uso dos modelos chineses no desenvolvimento da ferramenta, utilizando a técnica de fusão de pesos (model merge). No entanto, uma falha operacional durante a etapa de publicação levou à divulgação dos arquivos de teste em vez da versão final, antes da hora, gerando a confusão.
Mistura de modelos chineses
Com a nova IA da Prefeitura do Rio chamando a atenção nos testes de benchmark e o órgão destacando suas capacidades avançadas em programação, raciocínio e matemática, pesquisadores investigaram o modelo e compartilharam suas descobertas. Conforme a análise, o Rio 3.5 Open é formado por dois modelos chineses.
A Nex-AGI diz que a tecnologia tem, em sua composição, 60% do modelo Nex N2 Pro e 40% do Qwen 3.5-397B, este último da Alibaba;Na documentação inicial, o projeto mencionava apenas o modelo da Alibaba;Os investigadores apontaram, ainda, a falta de evidências da realização de treinamento da iniciativa brasileira, o que envolve custos mais altos;Além disso, a empresa diz que a fusão de tecnologias adotada pela IplanRio poderia piorar o desempenho da IA, em vez de aprimorar sua performance.
The Rio 3.5 model broke the internet this week. The plot twist? It’s essentially our open-source model, Nex N2 Pro, wearing a different hat.
🤯 We analyzed the weights, and the recipe is exact: Rio 3.5 ≈ 0.6 * Nex N2 Pro + 0.4 * Qwen 3.5
It even literally introduces itself… pic.twitter.com/yHRRu37aut
— Nex (@NexEcosystem) June 14, 2026
“O modelo Rio 3.5 quebrou a internet esta semana. A reviravolta? É essencialmente o nosso modelo open-source, Nex N2 Pro, usando uma skin diferente”, disse a Nex-AGI em seu perfil oficial no X, no domingo (14). Em tom de brincadeira, a postagem agradeceu à Prefeitura do Rio pela “validação definitiva do benchmark”.
Vale destacar que o uso de modelos com licença de código aberto não viola regras, sendo permitido até modificá-los em busca de melhorias. O problema é a falta de crédito aos criadores do projeto como ressaltou a startup chinesa ao afirmar que “no mundo open-source, a atribuição importa”.
Correção em andamento
Além de atribuir a falta de crédito à startup chinesa a um erro humano, a IplanRio atualizou a página do projeto na plataforma Hugging Face com pedido de desculpas e novos detalhes sobre o desenvolvimento do modelo. A entidade também informou que trabalha para reenviar a versão correta “o mais rápido possível”.
À reportagem, o órgão disse que o Rio 3.5 pode gerar “retornos práticos e diretos para a gestão pública do Rio de Janeiro”. A tecnologia representa soberania tecnológica ao reduzir a dependência de softwares estrangeiros.
Confira a íntegra da nota enviada pela IplanRio ao TecMundo:
“A IplanRio reitera que o ecossistema global de inteligência artificial baseia-se fundamentalmente na colaboração e no código aberto (open source). O desenvolvimento do projeto Rio 3.5 utiliza a técnica de fusão de pesos (model merge), combinando as arquiteturas públicas do Qwen 3.5 (Alibaba) e do Nex-N2 Pro (Nex-AGI).
Ambas as tecnologias são regidas por licenças abertas que autorizam, incentivam e têm como propósito a modificação e o aprimoramento por terceiros. Essa abordagem foi escolhida pela instituição justamente por sua alta eficiência e responsabilidade fiscal, permitindo entregar resultados robustos com baixo custo de processamento computacional para o município.
O cronograma do projeto previa que, após a composição inicial das arquiteturas abertas, o modelo passasse por um processo de pós-treinamento e refinamento nativo (on-policy distillation) conduzido pela equipe técnica, para sua devida customização à realidade do município.
Contudo, devido a uma falha humana e estritamente operacional durante a etapa de publicação na plataforma Hugging Face, foram subidos os arquivos de testes da fusão preliminar dos modelos, em vez da versão final refinada. Esse erro material fez com que o modelo temporariamente disponibilizado respondesse com traços da base de dados original da Nex-AGI.
Assim que a inconsistência foi identificada pela comunidade de pesquisadores — cujo escrutínio e colaboração são pilares que a IplanRio apoia e incentiva —, a instituição agiu de forma imediata e transparente.
O arquivo descritivo (README) do projeto foi atualizado prontamente para dar o devido crédito e a atribuição transparente ao modelo Nex-N2 Pro, corrigindo a omissão inicial;
Os fluxos internos de governança e publicação foram revisados para auditoria e compliance da infraestrutura de dados e a a equipe técnica já trabalha no upload da versão final, processada pelas diretrizes e dados específicos da Prefeitura do Rio.
A IplanRio reafirma seu compromisso com a inovação tecnológica na gestão pública, pautada pela transparência e pelo estrito respeito às normas da comunidade global de software livre. O Rio 3.5 segue sua trajetória para se tornar uma ferramenta pioneira de eficiência e atendimento ao cidadão carioca.
Mais do que uma inovação técnica, o Rio 3.5 foi concebido para gerar retornos práticos e diretos para a gestão pública do Rio de Janeiro. Ao desenvolver uma inteligência artificial baseada em código aberto, o município assegura sua soberania tecnológica e garante total independência de fornecedores internacionais de software proprietário, eliminando a dependência de licenças caras pagas em moeda estrangeira.
Na prática, essa tecnologia será aplicada diretamente na melhoria e agilização dos serviços públicos oferecidos ao cidadão carioca — como a otimização dos sistemas de atendimento, triagem de chamados de zeladoria e suporte à saúde —, promovendo uma severa redução de custos operacionais para a máquina pública”.
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