Uso de IA torna trabalho mais solitário e preocupa setor de tecnologia

O avanço da inteligência artificial (IA) dentro das empresas de tecnologia tem criado um efeito colateral inesperado: o aumento da sensação de isolamento entre funcionários. O alerta foi feito por Fiona Fung, líder de engenharia das equipes Claude Code e Cowork da Anthropic, em entrevista ao podcast de Lenny Rachitsky, publicada no último domingo, 21. Ela afirmou que o uso intensivo de agentes de IA estava transformando o trabalho em uma experiência cada vez mais solitária, levando a companhia a criar iniciativas para reforçar a interação entre colegas.

Fung relatou que os profissionais passaram a trabalhar grande parte do tempo ao lado de agentes de IA, reduzindo as trocas humanas que tradicionalmente fazem parte do desenvolvimento de software. Segundo ela, a empresa percebeu que a dinâmica poderia afetar o senso de equipe e decidiu promover ‘hackathons’ internos (eventos de programação e inovação) e sessões de programação em dupla para estimular a colaboração entre os funcionários.

De acordo com a executiva, as iniciativas tiveram resultados positivos. Além de fortalecer os vínculos entre os integrantes das equipes, os encontros permitiram a troca de conhecimento sobre diferentes formas de utilizar o Claude Code. “Cada vez que observo alguém trabalhando, eu também aprendo algo”, afirmou Fung ao comentar os benefícios das atividades presenciais e colaborativas.

Em nota enviada à revista Fortune, um porta-voz da Anthropic disse que a empresa acompanha de perto os impactos das ferramentas de IA sobre a colaboração entre funcionários. Segundo a companhia, o conceito tradicional de programação em pares está evoluindo: em vez de apenas resolver problemas complexos juntos, os engenheiros passaram a aprender observando como colegas utilizam agentes e sistemas de IA em suas rotinas de trabalho.

A discussão ocorre em um momento delicado para a indústria de tecnologia. Dados citados pela Fortune mostram que o setor registrou quase 120 mil demissões em 2026, número próximo ao total observado em todo o ano de 2025. Algumas empresas têm associado parte dessas reduções ao avanço da automação baseada em IA. A Meta, por exemplo, dispensou cerca de 8 mil funcionários neste ano em meio à intensificação de seus investimentos na tecnologia.

O impacto das transformações também tem sido percebido por trabalhadores que permaneceram empregados. Em relatos publicados na plataforma anônima Blind, profissionais do setor mencionam queda de moral, insegurança sobre o futuro e mudanças na cultura corporativa. Ao jornal The New York Times, Sunguk Moon, fundador e CEO da Blind, afirmou que o ambiente passou de um foco no planejamento individual de carreira para uma “ansiedade coletiva” diante da possibilidade constante de demissões.

A Meta também enfrentou questionamentos internos relacionados à moral das equipes. Segundo reportagem da revista Wired, o diretor de tecnologia da empresa, Andrew Bosworth, reconheceu em um memorando que a comunicação sobre uma reestruturação na divisão de IA foi inadequada.

O executivo afirmou que mudanças rápidas de estratégia e reorganizações internas abalaram a confiança de funcionários sobre suas perspectivas de crescimento e impacto dentro da companhia. Como resposta, a empresa prometeu ampliar investimentos em viagens, eventos sociais e espaços de convivência.

Especialistas afirmam que a IA adicionou uma nova camada de incerteza para trabalhadores da área. Jeffrey Pfeffer, professor da Stanford Graduate School of Business, argumentou que o setor de tecnologia historicamente valoriza velocidade e inovação acima da estabilidade dos funcionários. Já Neil Thompson, professor da MIT Sloan School of Management, avaliou que a ansiedade é alimentada pela dificuldade de prever quais tarefas serão automatizadas e quais novas funções surgirão.

A própria Anthropic abordou o tema em um relatório recente sobre aprimoramento de IA, no qual alguns funcionários relataram receio de que seu papel se torne menos relevante à medida que os sistemas ganham capacidade de realizar tarefas de forma autônoma, enquanto outros destacaram ganhos de produtividade e maior capacidade humana de direcionar o desenvolvimento da tecnologia.