
28 jun Esse carro não transforma você no Ayrton Senna, mas faz o que ele fazia
Vivemos uma época curiosa para quem gosta de carros.
Enquanto boa parte das conversas girava em torno de baterias, autonomia, carregamento e inteligência artificial, eu passei um dia inteiro ouvindo outra coisa: o barulho de motores a combustão trabalhando perto do limite, pneus cantando em um autódromo e uma alavanca de câmbio manual indo de uma marcha para outra.
O convite veio da T-Drive e da Bunker Garage para conhecer a linha Gazoo Racing da Toyota durante um track day no Autódromo Velocitta, em Mogi Guaçu. E, no meio de tantos carros modernos, uma tecnologia chamou muito mais a minha atenção do que qualquer número de potência.

Ela faz algo que, décadas atrás, era praticamente obrigatório para pilotos como Ayrton Senna. Antes de entender essa tecnologia, vale conhecer uma das técnicas mais famosas da história do automobilismo: o punta-taco.
O movimento que separava pilotos de motoristas
Imagine a seguinte situação. Você está entrando forte em uma curva. Precisa frear, reduzir da terceira para a segunda marcha e, ao mesmo tempo, manter o carro completamente equilibrado.
Se simplesmente soltar a embreagem após a redução, o motor estará girando mais devagar do que deveria para aquela velocidade. O resultado é um tranco provocado pelo freio-motor, que pode desestabilizar o carro justamente no pior momento.
Foi para resolver esse problema que nasceu o punta-taco.
A técnica consiste em frear normalmente enquanto o piloto dá um rápido toque no acelerador durante a redução da marcha, igualando a rotação do motor à velocidade da transmissão antes de soltar a embreagem.
Parece simples.
Na prática, exige coordenação, sensibilidade e muita prática.
O nome também explica tudo. Vem do italiano punta-tacco, ou “ponta e calcanhar”. Antigamente, o piloto realmente precisava frear com a ponta do pé enquanto dava um toque no acelerador usando o calcanhar. Hoje, a ergonomia dos pedais mudou: na maioria dos carros esportivos, basta usar a planta do pé no freio e girar levemente o tornozelo para tocar o acelerador com a lateral do mesmo pé.
Não era só para impressionar
Muita gente acredita que o punta-taco existe apenas para fazer bonito.
Na verdade, ele nasceu por motivos bastante práticos.
O primeiro era preservar a mecânica. Igualando a rotação entre motor e transmissão, diminuíam-se os impactos sobre sincronizadores, engrenagens e embreagem.
Mas, com o avanço da engenharia, surgiu um motivo ainda mais importante.
Em carros de tração traseira, reduzir uma marcha sem igualar o giro do motor pode provocar um tranco suficiente para aliviar a aderência das rodas traseiras, especialmente durante frenagens em curva ou em piso molhado.
Em uma situação dessas, alguns décimos de segundo podem ser a diferença entre fazer a curva perfeitamente ou terminar rodando.
Não é coincidência que essa técnica tenha permanecido viva até hoje no automobilismo.
A tecnologia resolveu fazer isso por você
Foi exatamente aí que encontrei uma das soluções mais interessantes da linha Gazoo Racing.
Os modelos manuais, como o GR Yaris e o GR Corolla, utilizam um sistema chamado iMT( Intelligent Manual Transmission).

Apesar do nome, ele não transforma o carro em automático.
Você continua usando embreagem, escolhe todas as marchas e faz exatamente o trabalho de um câmbio manual tradicional.
A diferença acontece apenas nas reduções. A central eletrônica monitora velocidade, marcha selecionada e rotação do motor. No instante em que você reduz, ela dá automaticamente um pequeno toque no acelerador, igualando a rotação antes de a embreagem ser totalmente solta.
É exatamente o mesmo princípio do punta-taco.
O resultado aparece imediatamente: as reduções ficam muito mais suaves, rápidas e estáveis.
Na prática, é como se o carro executasse automaticamente um movimento que, durante décadas, era considerado uma habilidade exclusiva de pilotos experientes.
A tecnologia não substitui o piloto
É curioso perceber como a tecnologia automotiva evoluiu.
Em vez de eliminar completamente o prazer de dirigir, ela começa a preservar justamente aquilo que tornou os carros esportivos tão apaixonantes.
O iMT não tira o câmbio manual das suas mãos.
Ele apenas automatiza um dos movimentos mais difíceis da pilotagem esportiva, permitindo que qualquer motorista experimente uma pequena parte da sensação que pilotos lendários dominavam com anos de treinamento.
Depois de passar um dia inteiro com a linha Gazoo Racing no Velocitta, saí do autódromo pensando justamente nisso.

Em um momento em que boa parte da indústria tenta reinventar completamente a experiência ao volante, ainda existem fabricantes investindo em algo que, para quem cresceu nos anos 80 e 90, continua sendo insubstituível.
A conexão entre motorista, motor, embreagem… e um bom câmbio manual.