IA vira conselheira da Geração Z para responder mensagens e escrever conversas

A inteligência artificial (IA), que se popularizou como ferramenta para aumentar a produtividade em tarefas de trabalho e estudo, começa a ocupar um novo espaço no cotidiano: o das conversas pessoais. Cada vez mais usuários da Geração Z (nascidos entre 1997 e 2010) recorrem a ferramentas como ChatGPT, Gemini e Meta AI para responder mensagens, escrever e-mails, lidar com situações delicadas e encontrar as palavras certas.

O comportamento ganhou força entre jovens e virou tendência em vídeos no TikTok, em que usuários se gravam consultando ferramentas de IA antes de responder mensagens, geralmente acompanhados de frases como “eu perguntando para a IA o que respondo agora”.

O movimento ficou mais evidente com a expansão dos recursos de IA no WhatsApp. Em 2024, a Meta passou a oferecer uma ferramenta de ajuda para escrever que permite editar ou reformular mensagens antes do envio, com sugestões de escrita para diferentes contextos e estilos. Segundo a empresa, procurada pelo TecMundo, a Meta AI pode auxiliar usuários a reescrever textos, ajustar o tom das mensagens e corrigir a gramática antes do envio.

A companhia afirmou que conversar com IAs “se tornou rapidamente uma parte essencial da maneira como as pessoas buscam informações e respostas”, motivo pelo qual também lançou um modo anônimo para interações com a Meta AI voltado a conversas que podem envolver informações pessoais, financeiras, profissionais ou de saúde.

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Para parte dos usuários, no entanto, esse hábito surgiu antes mesmo de virar funcionalidade oficial. O consultor de sustentabilidade Eduardo Celestino, de 24 anos, contou que começou a usar o ChatGPT ainda nas primeiras fases de popularização da ferramenta, incentivado pelo ambiente de trabalho.

“Eu comecei a usar IA logo que o ChatGPT foi lançado. Eu trabalhava em uma startup e era muito incentivado a utilizar essas novas ferramentas. A partir dali, eu passei a usar diariamente para me ajudar a formular mensagens e e-mails, especialmente para me adequar a diferentes públicos”, explicou.

Comunicação mediada pela IA

Hoje, o uso extrapola o ambiente profissional. “Para conversas do dia a dia eu uso de forma diferente”, disse o consultor de sustentabilidade. “Teve uma situação em que uma chefe minha saiu da empresa. Mandei uma mensagem de despedida, ela respondeu de um jeito meio seco e eu não sabia o que responder. Ficou aquele limbo: ‘Preciso responder isso? O que eu falo?’. Aí, geralmente, eu tiro um print, mando para a IA e pergunto: ‘Respondo alguma coisa? O que você responderia?’. Ela acaba me apoiando nesses momentos um pouco mais constrangedores”.

Ainda assim, ele afirmou que revisa os textos antes do envio. “Eu sempre dou uma adaptada, acho importante, porque a IA acaba não conseguindo trazer o nosso tom pessoal para uma mensagem”, concluiu.

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A analista de programação Laura Neves, de 24 anos, também utiliza IA para situações específicas da vida pessoal, principalmente quando falta criatividade para responder mensagens de flerte. “Eu uso para responder flertes quando não sei mais o que responder ou estou sem criatividade. Eu mando pra IA o que a pessoa falou e pergunto: ‘O que responder? Me dá algumas opções’. Aí escolho dentre as sugestões, mas sempre adapto para deixar do meu jeito”.

Para João Finamor, professor de marketing digital da ESPM, esse comportamento representa uma continuidade da digitalização das relações sociais. “A Geração Z teve muito da sua formação durante a pandemia, onde as relações sociais já eram diferentes e foram muito digitalizadas. Então, é uma geração que interage muito mais no meio digital do que até mesmo no presencial”.

Segundo ele, a procura por orientação para responder mensagens não é nova, mas muda de intermediário. “A gente sempre buscou aceitação e orientação em outras pessoas. Nós somos seres coletivos, e essa interdependência sempre existiu. A diferença é que, agora, em vez de um ser humano, quem guia e baliza as respostas é a IA”, explicou.

A analista de conteúdo digital Clara Dias, de 26 anos, disse que inicialmente resistiu ao uso da IA, mas passou a adotá-la tanto no trabalho quanto em situações delicadas da vida pessoal. “Ela me ajuda muito quando estou travada. Às vezes preciso mandar uma mensagem extremamente formal e não consigo encontrar as palavras certas ou expressar o que quero. Então, jogo esse turbilhão de emoções na IA para me ajudar a enxergar aquilo com mais clareza”.

Segundo ela, a ferramenta também funciona como uma forma de organizar conversas difíceis antes de acontecerem. “Também uso muito para desenvolver alguns temas que preciso conversar com o meu namorado e sobre os quais, às vezes, é difícil falar”, disse.

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Entre praticidade e dependência

Na avaliação do psicólogo comportamentalista Bruno Albuquerque, o crescimento desse comportamento está relacionado ao conforto proporcionado pela tecnologia. “A melhor palavra é conforto. A IA oferece uma solução muito prática e respostas rápidas. Quando a pessoa não sabe o que escrever, ela pergunta para a ferramenta, recebe uma resposta que considera plausível, fica mais tranquila, manda a mensagem e segue em frente”.

Clara relatou perceber benefícios semelhantes, mas reconheceu um possível efeito colateral. “A IA te valida, de certa forma. É como se você não estivesse tão sozinho naquela tarefa”. Ao mesmo tempo, ela faz uma ressalva sobre o uso frequente da tecnologia. “Eu realmente acho que a IA ajuda, mas também acho que ela acaba fazendo a gente perder um pouco das habilidades cognitivas. Acho que a gente passa a pensar um pouco menos. Só não sei até que ponto isso é bom”.

Finamor avaliou que a adoção crescente da IA pelas plataformas acompanha um comportamento que já vinha sendo observado entre os usuários. “O grupo Meta costuma aproveitar tendências. Ao incorporar esse tipo de recurso, acompanha um comportamento que já estava entrando na nossa cultura digital. Isso tem dois lados: existe a facilidade, mas também cria uma relação de interdependência”.

Para ele, o principal risco está na perda de autonomia e de senso crítico. “O ponto negativo é que, por falta de senso crítico, as pessoas podem acabar respondendo com algo que não é delas, que não representa o que realmente diriam”.

O psicólogo Bruno fez uma avaliação semelhante ao afirmar que a IA pode deixar de ser uma ferramenta de apoio para ocupar o lugar do próprio raciocínio. “Ao mesmo tempo que ajuda, o uso constante de IA impede o usuário de entrar em contato com os seus próprios limites e de desenvolver um repertório por si mesmo”. Em sua visão, o desafio está em usar a tecnologia como um instrumento de apoio, pesquisa e reflexão, sem que ela substitua a experiência necessária para desenvolver habilidades de comunicação.

Ao incorporar oficialmente recursos para escrever mensagens, revisar textos e ajustar o tom das conversas, plataformas como o WhatsApp sinalizam que um comportamento que nasceu espontaneamente entre os usuários tende a se tornar parte da experiência digital.