Por que estamos adoecendo no trabalho? Spoiler: não é por estarmos mais frágeis

Existe uma narrativa que ronda o mercado de que o adoecimento mental no trabalho aumentou porque as pessoas estão mais frágeis. Muito se fala sobre a baixa tolerância à frustração da geração Z, frequentemente apontada como a geração que não aguenta pressão, não aceita hierarquia e abandona empregos diante do primeiro desconforto.

É fácil entender de onde vem essa associação. O crescimento da preocupação com a saúde mental nas empresas coincidiu com a entrada massiva dessa geração no mercado de trabalho. Mas correlação não é causalidade. Engana-se quem pensa que o adoecimento está vinculado a um perfil específico e, mais ainda, que ele é consequência das características de uma geração.

As causas do sofrimento psíquico no trabalho são multifatoriais e atravessam pessoas de diferentes idades, setores, empresas, cargos e níveis hierárquicos. Se o fenômeno é tão disseminado, talvez ele diga menos sobre uma suposta fragilidade de quem trabalha e muito mais sobre as profundas transformações na maneira como o próprio trabalho passou a ser organizado.

E uma das primeiras mudanças está na relação que estabelecemos com a exigência. Pressão, metas e cobrança evidentemente não nasceram com o trabalho contemporâneo. O que parece ter mudado é seu caráter de excepcionalidade. O esforço extraordinário, que deveria ser convocado diante de uma situação extraordinária, foi incorporado ao funcionamento cotidiano e o que se tornou raro foram os momentos de tranquilidade.

Byung-Chul Han descreve algo dessa lógica quando fala da passagem de uma sociedade disciplinar para uma sociedade do desempenho. Já não precisamos necessariamente de alguém nos dizendo o tempo inteiro “você deve”. Nós mesmos incorporamos a exigência de produzir, melhorar, performar e superar nossos próprios resultados. A violência da cobrança não desaparece, porque ela agora está dentro de nós mesmos.

Vladimir Safatle ajuda a levar essa discussão ainda mais longe ao mostrar como determinados modos de organização social também produzem determinadas formas de sofrimento. A maneira como sofremos não está apartada do tempo em que vivemos. Quando desempenho, autonomia e responsabilidade individual tornam-se valores absolutos, o fracasso também passa a ser experimentado individualmente.

Essa talvez seja uma das características mais perversas do trabalho contemporâneo: problemas produzidos coletivamente são frequentemente experimentados como insuficiências das pessoas individualmente.

Se eu não consigo dar conta de algo, talvez me falte resiliência. Se estou exausta, preciso aprender a administrar melhor meu tempo. Se não consigo me desconectar, tenho que estabelecer limites. Se a pressão está insustentável, preciso desenvolver inteligência emocional. A organização do trabalho nunca é questionada e o que sobra é um sujeito tentando descobrir o que há de errado consigo mesmo. 

Mark Fisher chamou atenção para movimento semelhante ao discutir como questões sociais e políticas passam a ser privatizadas e tratadas como problemas individuais. No mundo corporativo, a consequência é bastante concreta: oferecemos ao indivíduo ferramentas para suportar condições de trabalho que permanecem exatamente iguais: a ioga, o gympass, o vale terapia.

E essas condições também mudaram nossa relação com o tempo. O trabalho deixou de terminar quando saímos do escritório. A tecnologia permitiu uma flexibilidade que trouxe ganhos importantes, mas também dissolveu parte das fronteiras que separavam trabalho e vida privada. O e-mail está no celular, a mensagem chega durante o jantar e a reunião pode ser marcada em praticamente qualquer lugar. Não significa apenas que trabalhamos eventualmente fora do horário, mas que permanecemos psiquicamente disponíveis para o trabalho por muito mais tempo.

Descansar, afinal, não é apenas parar de produzir. É conseguir se desligar, especialmente do trabalho. Quando essa interrupção desaparece, perdemos também uma condição importante para elaborar aquilo que vivemos. E talvez aqui exista uma dimensão do sofrimento contemporâneo menos evidente do que o excesso de horas trabalhadas: não temos apenas pouco tempo para descansar. Temos pouco tempo para pensar, refletir, digerir questões.

A própria jornada se tornou fragmentada. Alternamos entre reuniões, mensagens, e-mails, plataformas, notificações e pequenas urgências que disputam nossa atenção continuamente. Podemos passar um dia inteiro extremamente ocupados e, ainda assim, terminar com a estranha sensação de não termos feito nada.

Essa fragmentação não produz apenas perda de produtividade, mas uma experiência subjetiva igualmente entrecortada. Pensar exige algum grau de continuidade, assim como criar. Elaborar conflitos, erros, frustrações e acontecimentos exige ainda mais.

Freud colocou a elaboração em um lugar central da experiência psíquica. Aquilo que não pode ser elaborado não desaparece, mas retorna, insiste, encontra outras formas de expressão e geram sintomas doloridos. Evidentemente, uma empresa não é um consultório e o trabalho não deve ocupar o lugar de uma análise, mas organizações também precisam criar condições para que aquilo que acontece no trabalho possa ser pensado, nomeado e transformado.

Quando tudo precisa ser resolvido imediatamente, conflitos são encerrados sem terem sido compreendidos, decisões se sucedem sem reflexão e problemas reaparecem com outras roupagens. Às vezes como irritabilidade, rivalidade, desengajamento, rotatividade ou adoecimento.

Há ainda outra dimensão fundamental nessa equação: o sentido. Nem todo mundo que adoece está trabalhando demais. Há pessoas profundamente esgotadas em trabalhos que, olhando apenas para a quantidade de horas ou tarefas, não pareceriam excessivos. Christophe Dejours ajuda a compreender esse aparente paradoxo ao colocar o reconhecimento no centro da relação entre trabalho e subjetividade.

Trabalhar não é apenas executar uma tarefa em troca de salário. Há investimento psíquico naquilo que fazemos. Esperamos que nosso esforço encontre algum reconhecimento, que aquilo que produzimos tenha algum valor e que possamos reconhecer alguma coisa de nós mesmos no resultado do nosso trabalho.

Quando esse sentido não aparece, trabalhar pode se tornar profundamente desgastante mesmo sem jornadas intermináveis. É também aqui que aparece algo que me parece cada vez mais importante nas organizações: pertencimento. O sujeito precisa conseguir encontrar um lugar possível dentro daquele coletivo. Quando não há vínculos, as relações tornam-se exclusivamente instrumentais e as pessoas se sentem substituíveis o tempo todo, perde-se uma dimensão importante daquilo que sustenta psiquicamente o trabalho.

Talvez por isso seja insuficiente tentar explicar a atual crise de saúde mental escolhendo entre dois culpados: de um lado, empresas adoecedoras; de outro, indivíduos frágeis. O sofrimento psíquico é mais complexo do que isso. 

Quando pessoas de diferentes idades, histórias, empresas e níveis hierárquicos começam a apresentar formas semelhantes de exaustão, ansiedade, desengajamento e perda de sentido, talvez valha a pena perguntar também o que aconteceu com o jeito de trabalhar.