
11 ago O que está acontecendo no mercado de venture capital globalmente?
No final de semana passado, li um relatório do PitchBook com um título que ficou ecoando na minha cabeça: “A recuperação atual do venture capital é toda IRR, sem DPI”.
Traduzindo para quem não vive o jargão do mercado: o venture capital parece ter se recuperado, mas boa parte dessa recuperação ainda existe mais no papel do que na conta bancária.
Há muitos motivos para o otimismo. Rodadas de inteligência artificial continuam acontecendo em valuations impressionantes. A captação de recursos voltou a acelerar e os retornos reportados pelos fundos melhoraram significativamente nos últimos trimestres.
Mas há um detalhe importante: Os fundos levantados em 2021 devolveram muito pouco dinheiro aos seus investidores até agora. Bem pouco mesmo. E isso nos leva a uma distinção importante.
No mundo de venture capital, existe uma diferença entre aquilo que um investimento vale e aquilo que ele já devolveu. Uma startup pode valer bilhões de dólares em uma rodada recente. Um fundo pode mostrar retornos excelentes em seus relatórios. Mas, enquanto ninguém vender a empresa, fizer um IPO ou gerar liquidez de alguma forma, esse ganho continua sendo apenas uma marcação de valor. Por isso, o relatório traz uma provocação interessante: a recuperação atual do mercado parece ser mais uma recuperação de valuation no papel do que uma recuperação de liquidez.
É verdade que essas duas coisas normalmente caminham juntas, mas não necessariamente no mesmo ritmo. O fenômeno fica ainda mais evidente quando olhamos para a inteligência artificial. Nunca vimos tantas empresas criando valor tão rapidamente. OpenAI, Anthropic, Cursor, Thinking Machines e tantas outras estão redefinindo indústrias. Mas uma pergunta permanece: quem está conseguindo transformar esse valor em caixa?
O mercado de IPOs continua relativamente fechado. Empresas permanecem privadas por muito mais tempo do que há uma década. E investidores têm recorrido cada vez mais ao mercado secundário, comprando e vendendo participações em empresas privadas entre si, como forma de gerar liquidez sem precisar esperar uma abertura de capital.
A grande pergunta da IA já não é se ela vai criar valor econômico. Quase ninguém duvida disso. A questão agora é outra: como esse valor será convertido em retornos efetivos para investidores? Porque criar valor e realizar valor são coisas diferentes. Uma empresa pode valer US$ 100 bilhões em uma apresentação para investidores, outra coisa é existir um comprador disposto a pagar esse valor hoje.
Talvez seja por isso que vemos tanta atenção voltada para mercados secundários, estruturas de liquidez e novas formas de monetização dos investimentos privados. À medida que as empresas permanecem fechadas por mais tempo, esses mecanismos deixam de ser exceções e passam a fazer parte da estrutura do mercado.
No fundo, a discussão do relatório vai muito além do venture capital. Ela fala sobre algo bastante universal: a diferença entre expectativa e realização. Entre riqueza potencial e riqueza efetiva. Entre o valor que acreditamos ter criado e o valor que realmente conseguimos capturar.
E essa talvez seja uma das perguntas mais importantes da era da inteligência artificial. Não se a tecnologia vai criar trilhões de dólares em valor, mas quem, quando e como conseguirá transformar esse valor em dinheiro de verdade.