
12 ago Livro de ex-funcionária revela como Google se afastou de ideais fundadores
O novo livro de Claire Stapleton, ex-funcionária do Google que ajudou a organizar a greve de 2018 contra a forma como a empresa tratou denúncias de assédio sexual, conta como ela passou de defensora da companhia a uma de suas críticas. Em “Don’t Be Evil” (“Não seja malvado”, em português), a especialista em comunicação descreve mudanças na cultura corporativa, conflitos com gestores e o processo que culminou em sua saída da empresa.
Stapleton entrou no Google em 2007, logo após concluir a faculdade, e rapidamente ganhou espaço na companhia. Seu trabalho na área de comunicação ajudou a construir a imagem pública do Google e lhe rendeu o apelido interno de “Barda do Google”. Ela descreve aquele período como uma espécie de “bilhete dourado do Willy Wonka”, em entrevista à Ars Technica, pela sensação de ter conseguido um dos empregos mais disputados do setor de tecnologia.
A relação com a empresa começou a mudar quando Stapleton foi transferida para o Google Creative Lab, em Nova York. Ela descreve o ambiente como “meio utópico, meio distópico, e incapaz de distinguir um do outro”. Segundo seu relato, faltavam orientação e direcionamento da gestão, enquanto parte das atividades era voltada ao que classificava como um “tecno-otimismo enjoativo”. Depois de cerca de um ano, ela foi para a equipe de marketing do YouTube.

Da admiração à ruptura
A insatisfação se intensificou até a greve global de 2018, organizada por cerca de 20 mil funcionários. O movimento protestava contra a condução de denúncias de assédio sexual envolvendo executivos e outras questões internas. Seis meses depois, Stapleton deixou o Google. Ela afirmou que havia sido rebaixada durante uma reestruturação como retaliação por sua participação na mobilização.
Após a saída, Stapleton escreveu um ensaio para a revista Elle como uma forma de encerrar o vínculo emocional com a empresa. “Foi um fim tão abrupto e meio traumático depois de tanto tempo na empresa”, disse ela à Ars. “E grande parte da minha experiência foi realmente positiva.” Mais tarde, ao conversar com outros ex-funcionários, passou a questionar por que a relação com empresas de tecnologia poderia assumir uma dimensão tão forte. “É maior do que um emprego. É como uma identidade. É muito emocional e psicológico”, afirmou.
Para Stapleton, um dos momentos decisivos dessa transformação ocorreu em 2011, quando Larry Page substituiu Eric Schmidt como CEO. Segundo ela, Page tinha uma visão mais voltada à tecnologia e apresentava grandes ambições para a empresa, mas a estrutura interna acabou ficando mais corporativa. “Acho que isso criou uma cultura mais corporativa, o oposto do que Larry disse que queria”, afirmou. Na avaliação dela, o crescimento das equipes de comunicação e marketing tornou o Google mais complexo e menos eficiente.
A mudança, segundo Stapleton, também apareceu na estratégia de produtos. Ela cita fracassos como Google Glass e Google+ como exemplos de uma empresa que passou a perseguir tendências e concorrentes.
Ao mesmo tempo, afirma que a cultura interna, antes apresentada como favorável aos trabalhadores, começou a funcionar de outra maneira. “Se você aponta um problema, você se torna o problema”, disse. Para ela, a área de recursos humanos perdeu capacidade de limitar o poder dos gestores, enquanto questionamentos internos eram tratados como problemas do próprio funcionário.
A ex-funcionária também vê uma mudança na relação entre trabalhadores e grandes empresas de tecnologia. “Acho que agora todos nós entendemos melhor que todos estão apenas buscando favores e poder, e que tudo faz parte de um grande clube no topo, do qual não fazemos parte”, afirmou.
Na avaliação dela, a antiga imagem de que as empresas de tecnologia seriam agentes de transformação positiva perdeu força, enquanto trabalhadores passaram a questionar mais abertamente o poder concentrado nessas companhias.