Como Google, Microsoft e outras big techs ganharam espaço nas escolas dos EUA

Nos EUA, grandes empresas de tecnologia passaram, na última década, a ocupar um espaço cada vez maior dentro das escolas públicas, não apenas como fornecedoras de computadores e softwares, mas também como financiadoras de treinamentos, materiais didáticos, pesquisas e programas educacionais. A influência de companhias como Google, Microsoft, Apple, Amazon, Meta e OpenAI alcançou diferentes etapas do sistema de ensino, segundo investigação do The New York Times publicada no domingo, 23.

Um exemplo ocorreu no verão de 2025, quando cerca de 200 professores participaram, em Manhattan, de um treinamento promovido pela Microsoft sobre o Copilot, chatbot de inteligência artificial (IA) da empresa. Os educadores aprenderam a utilizar a ferramenta para tarefas como escrever e-mails para pais e adaptar planos de aula.

Também assistiram a um vídeo da divisão Minecraft Education, que apresentava conceitos de IA para crianças. A matéria do jornal americano compara esse tipo de treinamento aos seminários patrocinados por empresas farmacêuticas para médicos, nos quais fabricantes apresentam seus próprios produtos a profissionais da saúde.

A comparação ajuda a explicar a principal questão levantada pela jornalista: os treinamentos podem oferecer conhecimento útil aos professores, mas também criam uma oportunidade para as empresas apresentarem seus produtos e sua visão sobre o papel da tecnologia na educação. “A indústria financia o que beneficia a indústria”, afirmou a farmacologista Adriane Fugh-Berman, professora da Universidade de Georgetown.

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De computadores a currículos

Essa influência também aparece na estrutura tecnológica das escolas. Google, Microsoft e Apple, entre outras companhias, fornecem laptops, tablets, sistemas operacionais, aplicativos, plataformas de comunicação e ferramentas utilizadas diariamente por estudantes e professores. Segundo dados da consultoria Futuresource Consulting, os Chromebooks, computadores do Google, responderam por 59% dos dispositivos móveis enviados para escolas americanas no ano anterior à publicação da reportagem.

O Google ampliou essa presença oferecendo gratuitamente serviços como Gmail e outros aplicativos educacionais, além dos próprios Chromebooks. A estratégia, segundo o New York Times, ajudou a empresa a construir um ecossistema dentro das escolas e a tornar seus serviços familiares para alunos desde cedo. A campanha “Gone Google”, lançada no início da década de 2010, incentivava distritos escolares a substituir softwares tradicionais pelos aplicativos da companhia. Com isso, escolas passaram a divulgar a adoção dos produtos do Google como uma forma de preparar estudantes para a faculdade e o mercado de trabalho.

A influência, porém, não ficou restrita aos equipamentos. Empresas passaram a participar da definição de conteúdos e prioridades curriculares. A Apple oferece um currículo de Ciência da Computação Avançada que ensina programação na linguagem Swift, utilizada no desenvolvimento de aplicativos para iPhone. A Microsoft possui um programa semelhante, associado ao Minecraft Education.

Outro braço dessa estratégia foi o financiamento de organizações e campanhas para ampliar o ensino de programação. Em 2013, a Code.org publicou um vídeo com Bill Gates e Mark Zuckerberg defendendo que mais estudantes aprendessem a programar. A campanha recebeu financiamento e apoio técnico de empresas como Microsoft e Google e ajudou a impulsionar mudanças em leis e políticas educacionais de diversos Estados americanos. Os cursos tiveram efeitos positivos ao desenvolver habilidades como lógica e resolução de problemas, mas alguns também apresentavam o setor de tecnologia de forma excessivamente positiva.

A parceria entre empresas e instituições educacionais também chegou aos professores. Em 2025, a American Federation of Teachers, sindicato que reúne 1,8 milhão de profissionais, anunciou um programa nacional de treinamento em IA financiado em US$ 23 milhões por Microsoft, OpenAI e Anthropic. 

A presidente da entidade, Randi Weingarten, disse que a iniciativa ajudaria educadores a utilizar chatbots “de forma segura, inteligente e ética”. Ao mesmo tempo, reconheceu que havia uma diferença entre os objetivos do sindicato e os interesses comerciais das empresas. “Algumas das empresas com as quais estamos em contato visam o lucro. São dois objetivos fundamentalmente diferentes”, afirmou.

A aproximação provocou resistência entre parte dos professores. Lois Weiner, professora emérita de educação da Universidade da Cidade de Nova Jersey e ex-integrante do sindicato dos professores de Nova York, criticou o acordo com as empresas de tecnologia. Em entrevista ao New York Times, resumiu sua avaliação sobre a relação entre educadores e companhias com uma metáfora: “Isto não é uma aliança. Não estamos sentados à mesa. Somos a refeição.” O episódio mostra como a expansão da IA nas escolas passou a reproduzir o debate anterior sobre computadores e programação.

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A reação às telas e à IA

O entusiasmo inicial com a tecnologia também começou a perder força. Segundo o jornal americano, escolas americanas gastaram dezenas de bilhões de dólares em produtos tecnológicos na última década, mas laptops e aplicativos educacionais nem sempre produziram ganhos significativos de desempenho acadêmico.

Em Los Angeles, o segundo maior sistema público de ensino dos EUA, o distrito decidiu neste ano retirar iPads e Chromebooks fornecidos pelas escolas de alunos da pré-escola até o primeiro ano do ensino fundamental. Para Lila Byock, fundadora do grupo de pais Schools Beyond Screens, a promessa de que cada aluno precisava de um dispositivo para estar preparado para o futuro não se confirmou.

A mesma mudança aparece no debate sobre IA. Empresas que ajudaram a popularizar o ensino de programação agora defendem a inclusão de IA nas escolas, enquanto algumas enfrentam resistência de professores, pais e pesquisadores.

O avanço das big techs sobre as escolas expõe uma questão maior sobre o papel da educação pública. Brad Smith, presidente da Microsoft, afirmou que a atuação das empresas ocorre porque o setor público não conseguiu acompanhar as novas demandas.

“A filantropia no setor privado está realizando esse trabalho porque o setor público falhou em fazer o que deveria”, disse. Ao mesmo tempo, reconheceu que essa dependência não deveria ser a regra. O debate, portanto, não é apenas sobre computadores, programação ou IA, mas sobre quem define as prioridades da educação e quais interesses devem orientar a formação de milhões de estudantes.