Orbitals transforma animes dos anos 80 em jogo de tela dividida ao estilo It Takes Two

Enquanto muitos gamers consideram a “tela dividida” uma arte perdida no mundo dos jogos, a verdade é que essa mecânica segue em alta nos últimos anos. Além de títulos como Overcooked venderem milhões de cópias, projetos como It Takes Two e Split Fiction serviram de impulso para experiências de história totalmente focadas no split-screen.

E a prova máxima de que estamos vivendo um ótimo momento dos jogos de tela dividida é Orbitals, novo jogo da Kepler Interactive e da Shapefarm, estúdio de Tóquio, Japão. O título aproveita a crescente dos games de split-screen para fazer uma experiência que não apenas homenageia esse tipo de jogo, mas também serve como uma carta de amor aos animes dos anos 80 e 90 do início ao fim.

Com isso, o título entrega uma experiência que possui defeitos, mas oferece um pacote completo de diversão para quem ama dividir o sofá na hora de jogar. Mais do que simplesmente colocar duas pessoas diante da mesma aventura, Orbitals foi construído para exigir cooperação constante, algo que os próprios desenvolvedores trataram como uma das prioridades desde o início do projeto.

Uma civilização em órbita

Como o próprio nome do jogo indica, toda a narrativa de Orbitals se passa no espaço. O título traz dois protagonistas que podem ser controlados pelos jogadores em tela dividida: os jovens Omura e Maki, exploradores espaciais que, sob a liderança de Togen, precisam encontrar peças para manter a estação espacial onde vivem funcionando.

A narrativa não explica muito sobre como chegamos até ali, com uma pequena civilização vivendo no espaço, mas traz um bom desenvolvimento da história no decorrer de sua campanha. Em cerca de sete horas de história, o game expande esse universo e entrega um desfecho interessante para o seu escopo e condizente com suas principais referências.

A aventura começa com a estação espacial dos protagonistas em pedaços e presa em uma tormenta cósmica e sobrenatural, colocando a dupla em uma missão para atravessar regiões perigosas e tentar salvar o próprio lar. A premissa é simples, mas funciona como ponto de partida para apresentar criaturas, personagens e situações cada vez mais surreais ao longo da jornada.

Enquanto a narrativa é simples, o que mais chama a atenção é justamente como ela é contada. Orbitals esbanja carisma com sua estética de anime, trazendo várias referências não só na história, mas também na movimentação dos personagens, na ambientação e na dublagem, disponível em português brasileiro.

Lembrando animes antigos, Orbitals conta com dublagem em português brasileiro.

Dragon Ball, Neon Genesis Evangelion e obras do Studio Ghibli se unem em uma história que encanta com visuais rebuscados e interativos. Ainda assim, a equipe da Shapefarm explica, em entrevista cedida na Gamescom, que nunca quis copiar diretamente um anime específico, mas criar a sensação de estar assistindo a uma produção dos anos 80 que, de alguma forma, passou despercebida pelo jogador.

Essa preocupação aparece na direção artística, que foi construída a partir de estudos sobre design de personagens, estilos de animação, cores, moda e até penteados da época. As cenas feitas à mão pelo Studio Massket ajudam a completar essa identidade, enquanto shaders, animações, efeitos sonoros e a trilha original trabalham juntos para fazer Orbitals parecer, de fato, uma obra daquele período.

Apesar de ter cara de anime, Orbitals mantém sua veia de games ao trazer uma experiência repleta de segredos a serem explorados e pequenas interações que podem cativar o jogador. O próprio hub da aventura é um bom exemplo disso, já que é fácil se distrair com detalhes do cenário, atividades paralelas e minigames em vez de seguir imediatamente para o próximo objetivo.

É válido ressaltar que, apesar de a campanha ser curta, o jogo também conta com alguns minigames que podem ser encontrados nas fases e aproveitados na nave. Com isso, ainda dá para tirar um caldo do split-screen, principalmente ao receber amigos em casa e fazer disputas com os desafios.

Gameplay cooperativo de primeira

Na parte da jogabilidade, Orbitals também encanta com um gameplay que não esconde as inspirações em obras como It Takes Two, jogo da Hazelight que foi sucedido espiritualmente por Split Fiction. O jogo traz a tela dividida entre Maki e Omura, com ambientes para serem explorados e puzzles que podem ser resolvidos com armas especiais que incluem desde um jato de água até um micro-ondas espiritual.

Assim como It Takes Two, o gameplay normalmente envolve quebra-cabeças e puzzles de área, que variam de acordo com os ambientes visitados pelos protagonistas. O jogo também se diferencia ao trazer gameplay com uma nave espacial, com uma pessoa assumindo o assento de piloto e outra virando a responsável pelos tiros.

No geral, a jogabilidade é bem intuitiva, mas conta com alguns desafios que podem ser complexos para jogadores iniciantes. Com isso em mente, a dica é se preparar caso vá jogar com alguém que não manja muito de videogames, especialmente nas “fases de pular”.

Por outro lado, essa diferença de habilidade entre jogadores é justamente algo que a Shapefarm tentou reduzir durante o desenvolvimento. Em entrevista ao Gaming Boulevard, o diretor de jogo Jakob Lundgren explicou que os testes externos foram divididos entre duplas de jogadores experientes, duplas formadas por um jogador experiente e outro casual e pares compostos por dois jogadores casuais.

A equipe também evitou prender ferramentas permanentemente a um personagem específico, permitindo que os jogadores escolham quem fica responsável por determinadas funções. Até mesmo durante os trechos com a nave é possível decidir quem será piloto ou copiloto, o que ajuda a evitar aquela situação clássica em que um jogador acaba fazendo todo o trabalho enquanto o outro apenas acompanha.

Durante o gameplay, Orbitals também esbanja referências, incluindo fases inspiradas em games shoot ‘em up, bullet hells e plataforma 2D e 3D. Apesar da mistura, é um amálgama que dá certo e não fica enjoativo, mas que deixa a desejar em certos aspectos.

Um anime jogável que pode cansar os olhos

A direção de arte do jogo é tão bem feita que eventualmente a tela pode parecer superlotada, principalmente porque está dividida ao meio. Isso pode dificultar o jogador a se encontrar em certos ambientes e causar um pouco de cansaço visual, mas felizmente deu para combater isso dividindo as sessões de gameplay em períodos curtos.

Outro detalhe visualmente impressionante é a forma como o jogo combina seus personagens, cenários, efeitos e interfaces em uma mesma apresentação. Em alguns momentos, a quantidade de elementos simultâneos é tão grande que a identidade visual, que deveria ser um dos grandes trunfos, acaba trabalhando contra a legibilidade.

Além disso, o jogo conta com um problema estrutural peculiar que tivemos que aprender a lidar durante o gameplay por aqui: não é possível trocar os lados da tela, que são fixos com os personagens. Ou seja, se você vai jogar com Maki, sempre ficará no lado esquerdo.

Apesar de ser algo pequeno, isso acabou afetando a “sinergia” da sala aqui de casa, pois sempre tive que trocar de lugar com a minha esposa, a Bianca do Jornal dos Jogos, na hora da jogatina. É uma decisão que parece irrelevante no papel, mas que se torna curiosamente perceptível depois de algumas horas dividindo o sofá.

Outro detalhe que achei uma oportunidade perdida é o uso do GameShare do Nintendo Switch 2. Como Orbitals conta com belos visuais e uma interface bem carregada, seria interessante poder jogar em “tela cheia” com os personagens ao usar dois dispositivos diferentes, mas isso não acontece.

O título foi desenvolvido justamente para oferecer uma experiência cooperativa para duas pessoas, seja em tela dividida ou por meio dos recursos de compartilhamento do Nintendo Switch 2. Além do GameShare, a proposta oficial também contempla o Passe de Amigo Global, reforçando a ideia de que apenas uma cópia pode ser suficiente para colocar duas pessoas na aventura.

Porém, assim como no GameShare, o modo online também mantém a experiência de tela dividida. Enquanto eu entendo essa obrigatoriedade, que auxilia no gameplay, a opção de visualizar o game com mais amplitude certamente seria bem-vinda.

Uma joia que merece ir além do Switch 2

Orbitals também impressiona ao rodar muito bem no Switch 2. Além de entregar uma trilha sonora de ponta, o visual no console da Nintendo está bonito, principalmente no modo dock, aproveitando telas maiores.

A ambientação sonora contribui bastante para essa sensação de estar dentro de um anime antigo, com uma trilha sonora original criada para capturar a magia da época. Até mesmo a dublagem brasileira garante essa pegada nostálgica, com uma interpretação que lembra clássicos das animações japonesas.

Além de trazer suporte para GameShare, o jogo também pode ser utilizado usando apenas os Joy-Con separadamente, aproveitando esse recurso do Switch 2. É uma escolha que combina bem com a proposta da experiência, especialmente para quem pretende jogar de maneira casual ou receber alguém em casa.

É válido ressaltar que, além do modo tela dividida, o título também exige a compra de apenas uma cópia do game para ser jogado online em duas pessoas, seguindo os padrões atuais de projetos similares, como o já mencionado It Takes Two, Split Fiction e games como Reanimal e Little Nightmares 3. Isso ajuda bastante no custo-benefício de uma experiência que foi pensada desde o início para ser compartilhada.

No entanto, mesmo sendo um grande fã da experiência no Switch 2, não vejo motivos para o game seguir como exclusivo do console a não ser um possível contrato de exclusividade temporária. Qualquer plataforma moderna consegue garantir a mesma experiência entregue no console, e limitar essa joia para um grupo menor de jogadores parece uma decisão que pode impedir o game de alcançar o público que mais poderia aproveitá-lo.

Uma aventura curta, mas que sabe a hora de terminar

Se existe uma decisão que inicialmente pode causar estranhamento além da exclusividade do Switch 2, é a duração da campanha. Por aqui, precisamos de aproximadamente sete horas para terminar a história. No entanto, depois de concluir a narrativa de Orbitals, fica difícil dizer que o jogo deveria ser muito maior.

Assim como outros jogos independentes, como Mixtape, Orbitals aposta na variedade ao invés da quantidade, evitando que a experiência se arraste e torne-se cansativa. Essa escolha faz ainda mais sentido quando levamos em conta o visual do game, que é bastante rebuscado.

Os próprios desenvolvedores adotaram a filosofia de abandonar uma mecânica enquanto o jogador ainda sente vontade de continuar usando-a. A ideia é evitar aquele momento em que uma atividade deixa de ser divertida e passa a sensação de tarefa, algo especialmente importante em experiências cooperativas.

Orbitals: Retro Anime HD — Video Game Neon Romance | 2048x1152 | Wallpaper  Abyss

Durante a Gamescom, o diretor do jogo, Jakob Lundgren, explicou que, para ele, o jogo cooperativo ideal pode ser concluído em duas sessões longas ou três sessões médias. Afinal, encontrar tempo para duas pessoas jogarem juntas já é um desafio por si só, e campanhas muito extensas podem fazer com que semanas se passem entre uma sessão e outra.

Essa escolha funciona bem para Orbitals, e o modelo de gameplay adotado aqui no Voxel para a review é a prova disso: como a key chegou cedo, pudemos dividir o gameplay em sessões de uma hora por dia, como se estivéssemos vendo um anime. Com isso, jogar virou parte de uma rotina que não se tornou cansativa e onde a duração da história não virou um problema.

Vale a pena?

Apesar da campanha curta, Orbitals conquista com um mar de referências e gameplay diversificado e otimizado para duas pessoas. A história original e o universo inspirado em animes garantem uma experiência diferenciada para quem curte jogos ao estilo de It Takes Two e Split Fiction.

Como dá para ver de longe, o game não é nada original no gameplay, na sua história e ambientação. No entanto, o título acerta ao conseguir unir diversas referências em um pacote que lembra, justamente, diversos animes famosos: algo que não é revolucionário, mas consegue divertir e entregar uma experiência marcante.

Mais importante do que inventar uma nova fórmula, Orbitals entende muito bem o que quer fazer. Ao combinar cooperação obrigatória com um mar de referências e gameplay variado, o jogo cria uma aventura que funciona especialmente bem quando existe alguém disposto a dividir a experiência com você.

Com o preço de R$ 169 no Switch 2, Orbitals certamente vale a pena, principalmente considerando que apenas uma cópia é necessária para duas pessoas jogarem. Para quem tem o console e procura um game cooperativo para jogar com parceiro, amigo ou alguém menos acostumado aos videogames, é uma recomendação bastante fácil.

Agora, resta esperar e torcer para que a Kepler expanda os horizontes do game para outras plataformas, pois o título merece alcançar mais exploradores espaciais no PC e demais consoles.

Nota do Voxel: 90/100

Pontos positivos (prós):

  • A cooperação é realmente necessária e faz com que os dois jogadores tenham participação constante na aventura.
  • A direção de arte reproduz muito bem a estética dos animes clássicos e dá ao jogo uma identidade visual marcante.
  • A variedade de gêneros e mecânicas evita que a campanha fique presa a um único tipo de desafio.
  • A dublagem em português brasileiro combina muito bem com a proposta do jogo.
  • A campanha tem uma duração adequada para uma experiência cooperativa e evita prolongar mecânicas além do necessário.
  • Uma única cópia do jogo permite que duas pessoas aproveitem a aventura nos modos cooperativos compatíveis.
  • O desempenho no Nintendo Switch 2 é consistente, especialmente quando o console está conectado à TV.

Pontos negativos (contras):

  • A quantidade de elementos na tela pode dificultar a leitura dos cenários e provocar cansaço visual em algumas situações.
  • A impossibilidade de trocar os lados da tela pode atrapalhar a dinâmica entre os jogadores durante sessões mais longas.
  • O GameShare poderia aproveitar melhor a possibilidade de utilizar dois consoles ao permitir uma experiência com cada jogador ocupando uma tela inteira.

Uma cópia de Orbitals foi cedida pela Kepler Interactive para review no Voxel. O jogo chega em 3 de setembro no Nintendo Switch 2.