
20 out Call of Duty: Modern Warfare 4 é um clímax digno para franquia, mas acaba bem rápido
No ano passado, Call of Duty: Black Ops 7 decepcionou a crítica e a comunidade com uma história fraca, cheia de invencionices de roteiro, e missões ruins em uma campanha curta. Já Call of Duty: Modern Warfare 3, antecessor direto de MW4, também teve o modo história duramente criticado, principalmente pelo predomínio das Open Combat Missions, missões em mapas mais abertos que reaproveitavam áreas de Warzone.
Em MW4, a Infinity Ward parece ter prestado atenção a essas críticas e entregou uma campanha sólida – revolucionária? Não, mas competente e imersiva na medida certa. As missões são lineares, como nas campanhas tradicionais de Call of Duty, com set pieces poderosas e uma história interessante, embora tão inofensiva quanto as anteriores.

Neste review, enquanto o modo multiplayer e o novo DMZ não são liberados para o público, o VOXL avalia as qualidades e os defeitos da campanha single-player de Call of Duty: Modern Warfare 4. No texto, eu evito spoilers, mas esteja ciente que pode estragar algumas surpresas.
História para veteranos e recém-chegados
Desta vez, a história se desenrola em duas frentes paralelas: uma invasão da Coreia do Sul pela Coreia do Norte e os desdobramentos da trama de Price e Ghost dos games anteriores – o que é um grande acerto. O público recém-chegado acompanha a história de um esquadrão sul-coreano, formado por personagens inéditos, enquanto quem é das antigas confere o cânone clássico da série. As trajetórias dos dois grupos se cruzam em vários momentos, reforçando a proporção da guerra e dando sentido aos atos dos antagonistas.
Para evitar spoilers, não vou destrinchar detalhes sobre a trama neste review. Contudo, é possível afirmar que ela oferece impacto em boa medida, apresenta desfechos dignos para vários personagens importantes e prende o jogador de um capítulo a outro. Como sempre, a experiência é parecida com a de um filme de ação.

Os personagens do esquadrão da Coreia do Sul são interessantes e carismáticos. A maioria é jovem, inexperiente na guerra e evidentemente ingênua, contrastando significativamente com a postura mais rigorosa e amadurecida de Price, Ghost e Laswell. Eles ainda pensam no próprio futuro, em largar a vida militar e seguir outra carreira, e demonstram sensibilidade e medo da guerra. Em certas cenas, é evidente que estão ansiosos e sob forte estresse antes de chegar ao front, balançando as pernas ou comendo de forma exagerada.
Quanto a Price e Ghost, a trama mantém a proposta estabelecida em Call of Duty: Modern Warfare (2019). Eles são agentes de campo de uma guerra entre poderosos, e “se sujam para que o mundo permaneça limpo”. Suas decisões e interferências impactam a relação entre as Coreias, que aqui servem como peões numa guerra por proxy. Além da dupla, Gaz, Valeria, Kate Laswell e Makarov também têm papéis relevantes na trama.

O antagonista central deste novo título é o personagem interpretado pelo ator Mads Mikkelsen, o Arqueiro. Ele não é um soldado, mas uma figura política de grande importância para a Rússia e um dos motores do conflito entre as Coreias.
MW4 tem campanha bem curta
Infelizmente, a campanha de MW4 é curta e não oferece tempo suficiente para desenvolver os personagens tanto quanto deveria – parece mais um capítulo do que uma história inteira. Toda a jornada single-player pode ser concluída entre 7 e 9 horas de jogatina, dependendo da dificuldade e da dedicação aos objetivos secundários.
O personagem de Mikkelsen, por exemplo, não tem tempo de tela suficiente para desenvolver suas motivações para além do patriotismo e de outra surpresa – que, por sinal, é um retcon. Dá para sentir que ele é um homem poderoso, influente e ambicioso, mas acaba sendo um vilão de uma nota só. Algo similar acontece com as autoridades da Coreia do Norte – o novo líder supremo, Ri Seung-Ho, e sua irmã, Ri Ju-Young. Ambos têm mais tempo de tela e presença na trama, mas são igualmente pouco desenvolvidos.

Essa limitação também afeta os personagens clássicos. Price e Ghost são antigos companheiros de guerra, mas estão separados desde os eventos de MW3. A tensão entre os dois é pouco explorada e o fim do jogo, apesar de apropriado, perde força emocional justamente porque a história não tem espaço para florescer neste último capítulo.
No mais, MW4 é um jogo violento e trata de assuntos para o público adulto, com violência gráfica em um nível que não me lembro de ter visto em outro título recente da franquia. A campanha não chega nem perto do tom mais sombrio e sensível dos jogos originais – lembre-se de “No Russian” – e evita paralelos mais explícitos com conflitos do mundo real, mas tem seus méritos.
Quanto a localização brasileira, Call of Duty: Modern Warfare 4 é inteiramente dublado em português brasileiro, exceto pelos trechos propositalmente em coreano. O trabalho da dublagem nacional é excelente e consistente em todos os trechos, entregando intensidade nos momentos ideais e emoções apropriadas que não descolam o jogador da experiência.
Gameplay de Call of Duty moderno
O novo MW4 mantém o design de gameplay introduzido em Call of Duty: Modern Warfare (2019) e amadurecido nos jogos seguintes. As animações dos personagens são impecáveis, os ambientes são lindíssimos e a direção sonora é potente.
Não há muitas novidades nesse aspecto, exceto pelos sistemas específicos de MW4. O título aposta em um novo sistema de movimentação, com parkour mais fluido e movimentos adicionais, mas sem a velocidade exagerada dos jogos de 2024 e 2025 – o Omnimovement de Black Ops 6 não está aqui, por exemplo.

Frequentemente, o jogador deve explorar essas mecânicas para concluir perseguições a pé – subindo em canos, deslizando sobre objetos e agarrando-se a bordas – ou escalar torres, escadas e outras estruturas para alcançar o objetivo.
Na missão “Isolamento”, outros sistemas são apresentados, como os espaços da mochila e o gerenciamento de recursos. O trecho aparentemente serve como uma introdução ao modo de extração DMZ de MW4, mas não é uma reciclagem feita de qualquer jeito. Trata-se de uma única missão, que pode ser concluída rapidamente com o recurso de viagem rápida e é coerente com o roteiro, sem parecer uma adição forçada de mundo aberto.
Há também o sistema de stealth. A Infinity Ward optou por uma mecânica de furtividade bem tradicional, em que um indicador na tela mostra o nível de atenção de um inimigo sobre o jogador – branco mostra que você é visto pelo inimigo; amarelo indica que ele começou a suspeitar de algo; e vermelho sinaliza o combate.
Não há muita profundidade aqui, na verdade, mas o conjunto é suficiente para tornar a gameplay mais justa, previsível e menos frustrante. Finalmente, dá para optar pela furtividade sem depender da sorte ou de um sistema mal acabado.

Mesmo assim, que fique claro: a inteligência artificial dos inimigos continua praticamente a mesma. Eles avançam contra o jogador sem muito senso de autopreservação, sofrem de amnésia constantemente e, quando enfrentados de uma forma não prevista – com uma sniper no topo de uma torre, por exemplo –, podem simplesmente congelar e não fazer nada contra o jogador.
Um fechamento digno para um reboot controverso
Lá em 2019, o reboot de Modern Warfare serviu como uma renovação importantíssima para a franquia da Activision. Era um arco conhecido, mas com mudanças suficientes para apresentar uma história inédita e uma releitura dos eventos do original. Complementando o sucesso daquele lançamento, veio Warzone e, com ele, uma forte crise de identidade dentro do universo da franquia.

Nos títulos seguintes da série Modern Warfare, a proposta pareceu se alinhar cada vez mais às expectativas em torno de Warzone. Não à toa, as missões abertas lembravam conteúdos reciclados do battle royale, enquanto a história parecia buscar um rumo dentro desse contexto.
Em MW4, a Infinity Ward parece enfim encerrar o arco narrativo do reboot. O jogo inteiro proporciona uma sensação de clímax, dando um desfecho às trajetórias de personagens que escaparam da morte por tantos títulos. Quem pega o bonde andando também tem espaço para aproveitar a trama, graças ao esquadrão sul-coreano, carismático o suficiente para cativar um público menos apegado aos personagens clássicos – leia-se, jogadores mais novos que não acompanharam a trilogia original.
Esse esforço para atrair um público maior é evidente, principalmente no desenrolar de algumas missões. Há até uma sequência que funciona como uma versão moderna e retrabalhada do desembarque do “Dia D”, momento histórico da Segunda Guerra Mundial representado em vários jogos de Call of Duty, incluindo títulos lançados décadas atrás.

Vale a pena?
Call of Duty: Modern Warfare 4 entrega uma boa campanha, com uma sensação convincente de encerramento e um roteiro competente, mas sem momentos memoráveis o suficiente para marcar a franquia. Outro problema é a curta duração, que, como consequência, torna impossível recomendar a compra do jogo apenas pela experiência single-player.
Enquanto o multiplayer e o modo DMZ não são liberados para o público, é possível avaliar apenas a campanha. Por isso, a nota abaixo considera somente a história de Call of Duty: Modern Warfare 4 e não representa a avaliação final do game.
Nota da campanha: 80
Prós:
- Missões bem desenvolvidas, com variedade de gameplay em determinados trechos;
- Animações, gráficos e sons muito bem trabalhados;
- Sequências de ação e set pieces impactantes;
- Novos personagens carismáticos e convidativos para quem chega agora à franquia;
- Excelente dublagem em português brasileiro.
Contras:
- Campanha curta, com duração de 7 a 9 horas;
- Antagonistas e personagens importantes pouco desenvolvidos;
- Contexto de guerra pouco desenvolvido e sem muita inspiração.
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Uma cópia de Call of Duty: Modern Warfare 4 foi concedida ao VOXL para realização desta review. O jogo foi executado no PC, equipado com um processador AMD Ryzen 5 3600, Nvidia RTX 4070 Super, 16 GB de RAM e SSD.