
22 out CD Projekt Red revela segredo por trás do sucesso contínuo de The Witcher 3
Mais de uma década depois de levar Geralt de Rívia para uma das aventuras mais marcantes dos videogames, The Witcher 3: Wild Hunt continua encontrando motivos para voltar aos holofotes. O RPG da CD Projekt Red ultrapassou a marca de 65 milhões de cópias vendidas, recebeu uma nova versão remasterizada em 2026 e já tem uma expansão inédita, Songs of the Past, prevista para 2027.
Mas o que faz um jogo permanecer relevante por tanto tempo em uma indústria que não para de lançar novidades? Para Karolina Nieweglowska, diretora de Experiência e Segurança dos Jogadores da CD Projekt Red, a resposta está em algo que vai além de gráficos, sistemas de combate ou tamanho do mapa: a capacidade de criar histórias que tenham significado para quem joga.
Em entrevista ao VOXL, Nieweglowska e Tim Green, engenheiro especialista em renderização que trabalha na franquia desde o início de seu desenvolvimento, compartilharam suas perspectivas sobre a longevidade do RPG. Para os dois profissionais, o cuidado com os detalhes, a qualidade da narrativa e a presença de situações humanas em meio à fantasia ajudam a explicar por que tantos jogadores continuam voltando ao Continente.
The Witcher 3 trata videogames como uma forma de arte, revelam desenvolvedores
Nieweglowska trabalha na CD Projekt Red há mais de 15 anos. Ela começou na área de controle de qualidade (QA), passou pelo suporte técnico e, ao longo da carreira, assumiu responsabilidades que hoje também envolvem segurança, legislação e decisões voltadas à experiência dos jogadores.
Essa trajetória ajuda a entender a perspectiva da executiva sobre o que sustenta o sucesso de The Witcher 3. Para ela, a longevidade do RPG tem relação direta com a intenção de criar algo que permaneça na memória do público, mesmo depois que os créditos terminam.
“Minha definição é que fazemos jogos bonitos e pensados com cuidado”, explicou Nieweglowska. “Quando estamos criando esses jogos, a intenção de muitas das pessoas envolvidas é fazer deles uma forma de arte.”
A executiva reconhece que os videogames também são entretenimento e parte da cultura pop, mas acredita que essas características não precisam excluir sua capacidade de provocar emoções. Pelo contrário: é justamente essa combinação que pode transformar uma aventura fantástica em uma experiência que continua fazendo sentido anos depois.
Missões secundárias que contam histórias de verdade
Quem passou dezenas ou centenas de horas explorando o mundo de The Witcher 3 provavelmente se lembra de alguma missão que parecia simples no início, mas acabou revelando uma história inesperada. Para Nieweglowska, esse tipo de cuidado é uma das características que diferenciam o trabalho do estúdio.
A executiva cita como exemplo a atenção dedicada às tarefas secundárias, evitando que elas se resumam a objetivos repetitivos ou “quests de buscar”. Em vez de apenas pedir que o jogador reúna uma quantidade específica de itens, as missões podem trazer reviravoltas, piadas, referências ao universo do jogo ou situações que despertam identificação.
“Queremos que as coisas que as pessoas vivenciam nos nossos jogos também sejam significativas”, afirmou. Segundo ela, a equipe procura inserir nos mundos elementos que os jogadores possam reconhecer, relacionar com suas próprias experiências ou simplesmente achar engraçados por lembrarem alguém de suas vidas.
É um dos motivos pelos quais a fantasia de Geralt funciona tão bem. Embora o protagonista enfrente monstros, maldições e ameaças sobrenaturais, boa parte dos conflitos que encontra envolve sentimentos, escolhas difíceis, relações familiares e problemas que poderiam existir fora daquele universo.
“Queremos que esses jogos continuem sendo realistas no sentido de serem identificáveis para os seres humanos”, resumiu a diretora. Para ela, a lógica é parecida com a de um livro escrito há cem anos: se a obra ainda consegue estabelecer uma conexão com o leitor, a época em que foi criada deixa de ser uma barreira.
“Você pode ler um livro que foi escrito há 100 anos, mas se existe algo que se conecta com você, será possível aproveitar, independente de quando foi criado. É a mesma coisa com games”, explica a desenvolvedora.
Um mundo aberto em que até os pontos de interrogação têm algo a dizer
Tim Green concorda com a avaliação da colega, embora prefira resumir a explicação de maneira mais direta. “É um jogo realmente muito bom. As histórias são incríveis, e ele continua bonito mesmo hoje em dia”, comentou Green, que começou na CD Projekt Red em 2013, ao falar sobre os fatores que mantêm o RPG relevante.
O engenheiro também destacou o cuidado com as atividades espalhadas pelo mapa. Ele reconhece que a região de Skellige ficou famosa pela quantidade de marcadores de exploração, mas ressalta que até esses pontos podem esconder pequenas histórias capazes de tornar a jornada mais interessante.
A observação toca em uma das características mais lembradas do jogo: a sensação de que o mundo continua existindo mesmo quando Geralt não está seguindo a missão principal. Uma tarefa aparentemente banal pode revelar disputas locais, personagens peculiares ou consequências inesperadas, fazendo com que explorar o mapa seja mais do que preencher uma lista de objetivos.
O sucesso de The Witcher 3 foi planejado?
Com tantas atualizações e novos conteúdos depois do lançamento, é tentador imaginar que The Witcher 3 já nasceu com a intenção de permanecer relevante por mais de uma década. Nieweglowska, porém, pondera que é difícil prever o alcance de uma obra antes de o público ter contato com ela.
A diretora explica que não participou diretamente da decisão original de desenvolver o RPG, mas considera natural que exista a esperança de que um jogo seja apreciado por muito tempo. Transformar essa expectativa em realidade, no entanto, depende de fatores que nem mesmo seus criadores conseguem controlar completamente.
“É difícil prever como as coisas vão funcionar”, disse. Ainda assim, ela considera extremamente gratificante ver pessoas continuarem aproveitando o jogo tantos anos depois de seu lançamento.
O que a longevidade de The Witcher 3 significa para o futuro da franquia e da CD Projekt Red?
A experiência de retornar repetidamente a um projeto também pode influenciar a maneira como um estúdio encara o suporte de longo prazo, o que pode influenciar o próximo jogo da saga. Mesmo sem revelar planos concretos para o próximo jogo, Green acredita que a própria história de The Witcher 3 demonstra o valor de manter projetos em condições de receber novos cuidados no futuro.
“É importante tentar deixá-lo em um estado ao qual possamos voltar”, explicou. A ideia ajuda a entender por que a preservação técnica e a possibilidade de revisitar jogos antigos podem ter tanta importância para estúdios que mantêm franquias por muitos anos.
Para Nieweglowska, a longevidade de The Witcher 3 já faz parte do “modus operandi” da empresa, que também adotou uma estratégia similar com Cyberpunk 2077. Lançado em 2020, o game segue recebendo atualizações gratuitas, incluindo uma expansão que conecta o título com a série Mercenários, lançada na Netflix.
“Como ainda estamos voltando aos nossos jogos que lançamos há bastante tempo, como The Witcher, há 11 anos, isso mostra que essa é, de certa forma, uma característica da nossa maneira de trabalhar, sabe? É importante estarmos preparados para o futuro”, explica a diretora.
“Mas, ao mesmo tempo, sempre que fazemos essas atualizações e criamos patches, precisamos acompanhar as mudanças no ambiente ao nosso redor. As gerações de consoles mudam, a tecnologia evolui e, com isso, precisamos atualizar, por exemplo, os requisitos técnicos e os requisitos de sistema do jogo”, complementa. “É um desafio, porque existem muitas variáveis.”
Remasterização e nova expansão mantêm Geralt em evidência
A nova fase de The Witcher 3 reforça essa relação entre um jogo duradouro e a disposição de voltar a investir nele. A versão remasterizada chegou em setembro de 2026 para PC, PlayStation 5, Xbox Series X|S e Nintendo Switch 2, com atualização gratuita para quem já possui o jogo no mesmo ecossistema de plataforma.
Além das melhorias técnicas, a CD Projekt Red prepara Songs of the Past, uma terceira expansão prevista para 2027. O conteúdo representa uma nova oportunidade de reunir jogadores veteranos e pessoas que ainda não conheceram a jornada de Geralt, além de pavimentar o caminho para The Witcher 4, que será lançado em 2028 pelo estúdio.