Hackers atacam freezers na Europa; entenda o que motiva e como funcionam as invasões

A onda de ataques cibernéticos que começou na França há quase um mês ganhou uma nova escala neste domingo (1°) ao atingir estabelecimentos em diferentes países da Europa. O caso aparentava ser, em um primeiro momento, um incidente isolado, porém se transformou em uma ameaça contra a infraestrutura de grandes redes varejistas no continente, o que evidencia graves brechas de segurança na automação comercial.

Nas ocasiões, sinais de alerta se espalharam rapidamente na Bélgica, no Luxemburgo, na Suécia e na Espanha. Marcas como Ahold Delhaize relataram falhas súbitas em unidades durante a madrugada. Dezenas de empresas afetadas confirmaram, em comunicados oficiais, que investigam as causas das anomalias térmicas, além de reforçarem os protocolos de monitoramento para garantir a segurança dos alimentos e evitar novos acidentes.

A primeira grande ofensiva foi registrada em meados de setembro na França, onde cerca de 700 supermercados sofreram invasões em sistemas de controle de temperatura. Segundo a Agência Nacional de Segurança Cibernética do país, os criminosos comprometeram equipamentos das marcas Danfoss, Copeland e Dixell quando alteraram as rotas de resfriamento e elevaram o calor interno dos freezers em até 50°C.

Além do varejo de alimentos, os hackers miraram um setor crítico de saúde: um ataque cibernético atingiu a empresa Coolworld, fornecedora de sistemas de refrigeração do Etablissement Français du Sang (EFS), o sistema de sangue da França.

Na virada de domingo para segunda-feira, cibercriminosos invadiram o software de monitoramento remoto e alteraram a temperatura de câmaras frias usadas para armazenar amostras e plasma na região de Bourgogne-Franche-Comté. Embora os equipamentos tenham sido encontrados com marcas de até 130°C acima do nível ideal, um técnico de plantão evitou danos ao material e garantiu a transferência segura dos insumos.

Por que atacar freezers?

A escolha de sistema de refrigeração como alvo principal gera um impacto financeiro imediato e destrói o estoque de produtos perecíveis em poucas horas. Ao elevar a temperatura dos freezers de forma drástica, os invasores causam perdas materiais graves, interrompem a cadeia de suprimentos e colocam em risco a operação das lojas.

A manipulação prolongada dos ciclos de degelo revela que os cibercriminosos possuíam um conhecimento detalhado sobre a operação dos controladores comerciais das marcas afetadas. Ao TecMundo, o especialista em cibersegurança Daniel Cunha Barbosa avalia que o sucesso desse tipo de investida dá indícios de uso prévio de equipamentos similares:

“Os criminosos pareciam já deter conhecimento dos equipamentos em específico. O que mais me salta aos olhos é que eles podiam ter tido acesso a equipamentos similares para saber como operá-los previamente”.

Por que esse tipo de ataque se populariza no universo do cibercrime?

A popularização desse tipo de invasão decorre da transição tecnológica nos estabelecimentos comerciais, em que dispositivos antes mecânicos passaram a integrar redes desconectadas à internet para monitoramento e controles remotos.

No entanto, a identificação dos responsáveis e a diferenciação entre motivações continuam complexas. O Diretor de Segurança da Informação da empresa de segurança SOC Radar, Ensar Seker, afirma que a escala geográfica revela a extensão da exposição antes de indicar a identidade do invasor:

Seker avalia que a coordenação dos ataques e a ausência de pedidos de resgate não são suficientes para atribuir a ofensiva a um grupo cibercriminoso patrocinado por um país. Ele ainda afirma a necessidade de considerar a atuação de grupos motivados por ideologias ou de criminosos que reproduzem ataques semelhantes.

Como o ataque acontece na prática?

O mecanismo de invasão explora painéis de controle de temperatura que, muitas vezes, ficam conectados à internet sem proteção adequada ou utilizam credenciais fracas. Com o acesso remoto liberado, os cibercriminosos alteram os parâmetros de fábrica e forçam o desligamento dos compressores ou acionam o aquecimento máximo.

A ausência de barreiras entre a rede administrativa do supermercado e os dispositivos industriais facilita a ação maliciosa. Conforme detalha Daniel Cunha Barbosa, a falta de isolamento adequado permite que qualquer brecha comprometa toda a infraestrutura física do local.

“A principal falha de segurança de rede é, sem dúvida, não possuir segmentação de rede alguma. Isso faz com que qualquer pessoa mal-intencionada com acesso aos equipamentos possa acessar qualquer outro dispositivo presente na rede”, observa.

O pesquisador sugere que, em casos de ambientes críticos, as empresas adotem a postura de mínimo privilégio possível (least privilege), pois “ajuda a garantir que apenas o que for extremamente necessário para o funcionamento do ambiente terá permissão para trafegar entre as redes”.

Paralelamente, o executivo Ensar Seker elenca a “correção em etapas” como etapa fundamental para as empresas que usam sistemas de refrigeração:

Houve ataques similares a esses no passado?

Incidentes contra infraestruturas físicas vêm ocorrendo, porém ocorrências em massa direcionadas às cadeias de frio representam um novo patamar de risco. Para Ensar Seker, a ausência de um pedido de resgate imediato não descarta motivações financeiras e reforça que a infraestrutura de refrigeração é um alvo atrativo pela rapidez do dano físico causado.

“A infraestrutura da cadeia de frio é um alvo atraente porque a interrupção operacional pode se transformar rapidamente em perda física. Um invasor não precisa roubar informações para impor custos: alterar uma configuração de controle pode ser suficiente”, pontua o executivo.

Geladeiras comuns também podem ser atacadas?

A discussão sobre a segurança de dispositivos conectados abrange qualquer equipamento integrado à rede, embora o foco principal esteja em grandes redes varejistas e centrais comerciais.

Todavia, pesquisadores de vulnerabilidades em automação industrial da agência francesa ANSSI e analistas da Europol identificam que o risco de ataques direcionados e destrutivos contra eletrodomésticos residenciais é menor. Afinal, os invasores buscam alvos industriais e comerciais de grande porte pelo impacto operacional imediato e pela facilidade de localização de painéis expostos na internet sem proteção adequada.

“Os órgãos reguladores devem distinguir as salvaguardas operacionais imediatas das obrigações futuras dos produtos. O padrão prático deve ser se um varejista consegue detectar, conter e se recuperar de manipulações maliciosas de temperatura antes que o estoque se torne inseguro”, conclui Seker.

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