IA muda o trabalho dos programadores, mas criatividade segue essencial

A inteligência artificial (IA) deve mudar a maneira como os profissionais desenvolvem software, mas não elimina a necessidade de conhecimento técnico, criatividade e capacidade de avaliação. Essa é a avaliação de Martin Woodward, vice-presidente de Developer Relations do GitHub, em entrevista ao TecMundo durante o GitHub Universe 2026, realizado em São Francisco, nos EUA, em 28 e 29 de outubro.

Com a popularização dos agentes de IA, capazes de executar tarefas de programação a partir de instruções em linguagem natural, o trabalho dos desenvolvedores tende a se deslocar da escrita de cada linha de código para a definição de objetivos e a coordenação das ferramentas. Para Woodward, a tecnologia pode acelerar a execução, mas a criatividade humana continua sendo necessária para decidir o que construir.

“A IA pode tornar as coisas mais rápidas. O que as pessoas podem trazer é a criatividade. Podemos decidir o que queremos criar e usar os agentes para nos ajudar a chegar lá”, afirmou. Segundo o executivo, cabe ao desenvolvedor encontrar boas ideias e orientar os sistemas para transformá-las em projetos. “Você precisa dizer aos agentes qual é o destino antes que eles possam chegar lá”, acrescentou.

Woodward também chama atenção para a importância do julgamento profissional na avaliação dos resultados. Para ele, saber diferenciar um código de qualidade de uma solução mal construída continuará sendo uma habilidade humana relevante. “A diferença entre um código ruim e um bom código está no gosto”, disse, ao destacar a importância da experiência e da capacidade de avaliação dos profissionais.

Outro ponto destacado pelo executivo é o chamado pensamento sistêmico. Mesmo que os profissionais não precisem dominar várias linguagens de programação, devem compreender como elas funcionam e, principalmente, como diferentes componentes de um sistema se comunicam. “Você precisa entender como os componentes conversam entre si e ter uma boa base sobre sistemas”, afirmou. Esse conhecimento permite orientar os agentes e avaliar se as soluções desenvolvidas fazem sentido dentro de uma arquitetura maior.

Linguagem natural ganha espaço na programação

Para Woodward, a linguagem natural tende a se tornar uma das principais formas de interação com os sistemas de desenvolvimento. Em vez de depender de uma linguagem de programação específica, o profissional poderá descrever o problema que deseja resolver e orientar os agentes a partir de instruções no idioma de sua preferência. “A linguagem do desenvolvimento no futuro provavelmente será a linguagem natural. Você poderá explicar o problema na língua que escolher e direcionar seu agente para fazer o que deseja”, explicou.

Essa mudança também pode ampliar o acesso à área. O executivo avalia que a IA reduz barreiras para pessoas que ainda não dominam linguagens de programação ou não falam inglês. “Você não precisa aprender inglês antes de aprender a programar”, disse. Para ele, a possibilidade de interagir com ferramentas em diferentes idiomas democratiza o acesso ao desenvolvimento de software.

O executivo relaciona essa democratização ao crescimento da comunidade brasileira na plataforma. Segundo os dados apresentados no evento, o Brasil chegou a cerca de 10 milhões de desenvolvedores no GitHub. Woodward atribui parte desse avanço à possibilidade de programar em diferentes idiomas e ao perfil da população brasileira, que considera jovem e interessada em tecnologia.

A expansão do uso de IA, porém, não significa que qualquer pessoa possa desenvolver sistemas complexos sem preparo. A experiência continua sendo relevante para avaliar resultados, compreender arquiteturas e orientar os agentes. Como resumiu o executivo, o conhecimento técnico e a criatividade seguem importantes mesmo quando parte da execução é delegada às ferramentas.

Woodward também destacou a importância de sustentar projetos de código aberto. Com a ampliação do uso de ferramentas e bibliotecas mantidas por comunidades, empresas e indivíduos precisam contribuir para financiar os responsáveis por esses projetos. “As empresas e os indivíduos podem contribuir financeiramente com os mantenedores que trabalham nesses projetos”, explicou. Segundo ele, o GitHub reúne recursos de companhias e os direciona a projetos de código aberto, além de oferecer ferramentas de segurança para ajudar a proteger esse ecossistema.